Arquivo da categoria: HISTÓRIA DAS CANÇÕES

A história da canção “Lovely Rita”

Em 1967, guardas de trânsito do sexo feminino era um conceito relativamente novo no cotidiano britânico. Na Inglaterra, o termo usado para guardas de trânsito era “traffic wardens”. Ao ler um artigo de jornal, Paul McCartney ficou encantado com a expressão “meter maids”, como eram chamadas as guardas de trânsito nos EUA. Imediatamente, ele começou a fazer experiências no piano com a sonoridade da palavra, que originalmente seria uma canção anti-autoridade. Segundo Paul: “Achei ótimo. Tem de ser “Rita meter maid” e depois “lovely Rita meter maid”. Eu estava pensando que devia ser uma canção de ódio… Mas depois pensei que seria melhor amá-la”.

Algum tempo depois, uma guarda de trânsito chamada Meta Davies declarou ter autuado um certo McCartney em St. John’s Wood, Londres. Como Meta relembrou, o encontro fora muito incomum. “O carro dele estava estacionado em um parquímetro com o tempo expirado. Tive de emitir numa multa de dez xelins na época. Eu tinha acabado de colocá-la no para-brisa quando Paul apareceu. Ele olhou para a multa e leu minha assinatura, que era por extenso porque havia outra M. Davies na mesma unidade. Quando eu estava indo embora, ele virou para mim e perguntou ‘seu nome é Meta mesmo?’. Eu disse que sim. Ele disse ‘seria um bom nome de música’. Você se importa se eu usá-lo? Foi isso. Ele foi embora”, lembra Meta Davies. Apesar da guarda de trânsito que autuou Paul não ser fã dos Beatles, ela admitiu que era impossível, na época, não conhecê-los, e que sua filha adolescente costumava esperá-los em frente ao Abbey Road Studios.

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Meta Davies

Paul McCartney escreveu a letra de “Lovely Rita” em Wirral, que fica perto de Liverpool, enquanto caminhava perto da casa de seu irmão. Sobre aquela noite, Paul McCartney recordou: “Eu me lembro de uma noite em que estava dando apenas um passeio e trabalhando nas palavras enquanto eu caminhava… Não era baseado em uma pessoa de verdade mas, como acontecia frequentemente, foi reivindicado por uma garota chamada Rita [sic] que aparentemente me deu mesmo uma multa, então isso saiu nos jornais. Eu acredito que isso foi mais uma questão de coincidência: alguém chamada Rita que me multou naturalmente pensaria, ‘Sou eu!’. Eu não pensei, wow, aquela mulher me multou, vou escrever uma música sobre ela – nunca foi desse jeito”. 

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A gravação começou no dia 23 de fevereiro de 1967, no estúdio dois de Abbey Road. Oito takes foram gravados, sendo o oitavo o melhor deles. No dia seguinte, foram gravados os vocais. Em 7 de março, foram gravados backing vocals e efeitos sonoros. Liderados por John Lennon, os Beatles fizeram gemidos, ruídos, gritos, acrescentaram algum cha-cha-cha e tocaram papel e pentes. Para o truque do pente feito por John (que pode ser ouvido em “Lovely Rita” logo antes da frase “when it gets dark I tow your heart away”), fora pedido a Mal Evans que fosse até o banheiro do estúdio e pegasse papel, que vinha estampado com as palavras “Propriedade da EMI”, enquanto John distribuía os pentes. Depois, o papel fora enfiado nos pentes e soprados, soando como uma espécie de kazoo. O solo de piano em estilo de cabaré fora gravado por George Martin posteriormente, no dia 21 de março. 

 

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A história da canção “Nowhere Man”

A canção “Nowhere Man” nasceu dos sentimentos de isolamento de John Lennon em sua casa, em Weybridge, onde ele tinha um pouco de sossego depois da loucura da beatlemania e onde passava horas sozinho. Sempre se presumiu que a música fosse sobre alguém específico, porém, John afirmou que ele mesmo era o “homem de lugar nenhum”.
Segundo Lennon, ele estava desesperado por não conseguir compor mais alguma coisa para o disco Rubber Soul, depois de escrever sem parar por mais de cinco horas. “Eu estava sentado, querendo criar uma música. Então, pensei em mim, sentado ali, sem fazer nada e sem ir a lugar nenhum. Com esse pensamento, o resto foi fácil. As ideias foram saindo”, John recordou. “Não, agora me lembro: na verdade eu tinha tentado fixar o pensamento em qualquer coisa. Não saía nada. Fiquei cansado e resolvi ir deitar-me, desistindo daquilo. Então me imaginei como o Nowhere Man – sitting on his nowhere land“.

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John Lennon em sua casa, em Weybridge, em 1967.

No dia seguinte, quando Paul McCartney chegou à casa de John para começarem a compor, ele encontrou John Lennon dormindo. Segundo McCartney: “Quando saí para escrever com ele no dia seguinte, ele estava deitado no sofá, com o olhar perdido. Era uma música realmente muito não-John. Ele me contou depois, não tinha contado na época, que a havia escrito sobre ele mesmo. Sentia que ele não iria a lugar nenhum. Eu acho que na verdade foi sobre a situação do casamento dele. Foi em um período em que ele estava um pouco insatisfeito com o que vinha acontecendo; entretanto, o levou a uma canção muito boa. Ele a fez como uma canção na terceira pessoa, mas ele foi esperto o suficiente para dizer, ‘Ele não é um pouco como você e eu?‘ – Sendo “eu” a última palavra”.

John Lennon em seu estúdio caseiro, em Weybridge.

John Lennon em seu estúdio caseiro, em Weybridge.

As gravações ocorreram nos dias 21 e 22 de outubro de 1965. No primeiro dia, após um período de ensaios e algumas tentativas, John percebeu que precisaria trabalhar um pouco na música. No dia seguinte, após algumas mudanças, finalizaram a gravação de “Nowhere Man”.
A canção entrou para o repertório dos Beatles e foi uma das músicas executadas durante o último concerto da banda, no Candlestick Park, em San Francisco, no dia 29 de agosto de 1966. Confira abaixo os Beatles tocando “Nowhere Man” no Candlestick Park:

A história da canção I’m A Loser

Dois fatos foram essenciais para John Lennon compor “I’m a Loser”, em 1964. O primeiro deles foi conhecer a música de Bob Dylan, em Paris, quando ouviu o segundo álbum do cantor americano, “Freewheelin'”, que trazia sucessos como “Blowin’ in the Wind” e “Don’t Think Twice, It’s All Right”. John ficou encantado com a intensidade das gravações e das letras de Bob, que ia muito além das que John estava compondo até então, e decidiu comprar o álbum de estreia de Dylan. Segundo Lennon, “não conseguíamos parar de ouvi-lo por três semanas. Todos nós ficamos loucos por Dylan”.

“I’m a Loser” é vista como o mergulho inicial de John Lennon na introspecção e da sua busca incessante de explorar ao máximo seus próprios sentimentos em suas canções. “Esse sou eu em meu período de Dylan”, revelou John. “Parte de mim suspeita que ‘eu sou um perdedor’ (I’m a loser), e parte de mim acha que eu sou Deus Todo-Poderoso”.

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Bob Dylan e John Lennon, com Paul McCartney ao fundo.

 

O segundo fato que teve profundo efeito na composição de “I’m a Loser” fora o encontro que John Lennon teve em 23 de março de 1964 com Kenneth Allsop, jornalista que escrevia para o jornal Daily Mail e era entrevistador do noticiário Tonight, da BBC Television. Allsop fez uma entrevista de quatro minutos com John Lennon sobre seu livro “In His Own Write”. Na primeira conversa entre os dois no estúdio Lime Grove, da BBC, Kenneth foi direto ao assunto e disse a Lennon que suas composições com os Beatles não tinham a profundidade e o significado que tinham os textos de seu livro. Para Allsop, Lennon era um escritor muito mais interessante do que mostrava com suas composições. Seu conselho para John era que ele começasse a basear suas composições em seus sentimentos e experiências pessoais.

Alguns anos depois, John confidenciou a Elliot Mintz que esse encontro havia sido um momento decisivo em seu modo de compor. “Allsop disse a ele que não morria de amores pelas canções dos Beatles porque todas tendiam a ser ‘ela o ama’, ‘ele a ama’, ‘eles a amam’ e ‘eu a amo'”, conta Mintz. “Ele sugeriu que John tentasse escrever algo mais autobiográfico, em vez de usar os velhos temas superficiais. Isso ressoou dentro dele”.

Allsop foi encontrado morto em sua casa, em maio de 1973. A causa da morte foi uma overdose de analgésicos.

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Kenneth Allsop

A gravação aconteceu no dia 14 de agosto de 1964, no estúdio dois de Abbey Road, mesmo dia da gravação de Mr. Moonlight e Leave My Kitten Alone. A gravação foi simples, e levou oito takes para que acertassem. Confira abaixo o interessante take 3 de “I’m a Loser”:

A história da canção Blackbird

“Blackbird” fora composta por Paul McCartney inspirada nos conflitos raciais na América. O termo “blackbird” era usado pejorativamente para se referir às pessoas de origem africana desde a época dos escravos. Na década de 1960, com o crescimento dos movimentos dos direitos humanos, o termo foi transformado em algo positivo. Segundo Paul, “eu tinha em mente uma mulher negra, ao invés de um pássaro. Aqueles eram os dias do movimento dos direitos civis, que nos importávamos apaixonadamente, então era realmente uma canção de mim para uma mulher negra enfrentando esses problemas”. A melodia inspirada em “Bourée em mi menor”, de Bach, que ele e George Harrison aprenderam na adolescência em um manual de violão. “Parte de sua estrutura é uma coisa harmônica particular entre a melodia e a linha do baixo que me intrigou. Bach foi sempre um dos nossos compositores favoritos; nós sentíamos que tínhamos muito em comum com ele. Eu desenvolvi a melodia no violão baseada na peça de Bach e a mudei, levei-a a outro nível, então eu só encaixei as palavras à ela”, afirmou Paul McCartney.

É difícil afirmar com certeza em qual mês de 1968 Paul McCartney compôs “Blackbird”. Paul afirmou tê-la composto em sua fazenda na Escócia, e não na Índia. Provavelmente a composição da letra da música foi finalizada após a morte de Martin Luther King, famoso ativista político estadunidense e um dos principais líderes do movimento dos direitos civis, em 4 de abril. No dia 11 de junho, mesmo dia da gravação em Abbey Road, McCartney a tocou em um filme promocional da Apple dirigido por Tony Bramwell.

Durante todo o dia 11 de junho de 1968, George Martin, Geoff Emerick and Phil McDonald não pararam por um só minuto, indo da sala de controle do estúdio dois de Abbey Road para o estúdio três. Enquanto Paul McCartney gravava, sozinho, “Blackbird”, no estúdio dois, John Lennon ocupava o estúdio três experimentando sons para “Revolution 9”. Paul gravou 32 takes de “Blackbird”, apenas com voz, violão e um metrônomo suave fazendo a marcação, tendo completado apenas 11 deles. No final da sessão fora adicionado os efeitos sonoros da biblioteca de Abbey Road: “Volume Sete: Pássaros de Pena”. Segundo Stuart Eltham, engenheiro, “eu gravei em um dos primeiros gravadores portáteis de Abbey Road, em meu quintal em Ickenham, por volta de 1965. Há duas gravações, uma de pássaros cantando, e outra fazendo um som de alarme quando eu os assustei”. Confira uma demo da canção gravada na casa de George Harrison em maio de 1968:


A história da canção Taxman

A canção “Taxman” (que não tem nada a ver com “taxista”, como muitos pensam) começou a ser composta quando George Harrison descobrira que estava no grupo do chamado “imposto complementar” britânico. Na época, fazer parte desse grupo significava pagar 19 shillings e 6 pence (96 pence) de 20 shillings (uma libra) em impostos. Alguns dizem que o tema da série de televisão Batman foi uma das influências para a composição. Levando em conta que a série estreiou em 12 de janeiro de 1966 e a canção só começou a ser gravada em 20 de abril daquele ano, isso é plenamente possível, principalmente pela semelhança entre o refrão de Batman e o final de Taxman.

Desde que os Beatles se tornaram conhecidos em todo o mundo, ficara praticamente impossível dar atenção às coisas simples, como prestar atenção nos valores das contas para saber se estavam altas demais. Em 1966, quando as coisas finalmente se acalmaram e a banda começou a dar atenção a isso, ficaram absolutamente assustados, e descobriram que não tinham tanto dinheiro como pensavam. Segundo George: “Na verdade estávamos perdendo a maior parte (do nosso dinheiro) em forma de impostos. Era, e ainda é, típico. Por que deveria ser assim? Estamos sendo punidos por algo que esquecemos de fazer?”. 

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Os Beatles com Mr. Wilson

 

Segundo John afirmou depois, ele teve uma certa participação na composição da canção e ficara magoado com o fato de George ter esquecido essa contribuição na sua autobiografia, I Me Mine. Ainda segundo Lennon, George ligara para ele quando a estava escrevendo pedindo para que John soltasse alguns comentários jocosos para fazer a composição avançar, e foi o que ele fez. Nos primeiro takes de Taxman os backings do refrão eram “Anybody gotta lotta money, anybody gotta lotta money, anybody gotta lotta money?” cantado em uma velocidade muito alta (como pode ser ouvido na gravação abaixo a partir de 1:35), mas fora trocado por “Mr. Wilson, Mr. Heath” para fazer menção ao primeiro-ministro Harold Wilson e ao líder da oposição Edward Heath.

A história da canção I Don’t Want To Spoil The Party

Em fevereiro de 1964, os Beatles partiram para os EUA pela primeira vez. Eles tocaram em Washington D.C e em Nova York para promover “I Want To Hold Your Hand” e fizeram apresentações ao vivo no programa de Ed Sullivan, direto de Nova York e Miami. Mas foi só em agosto daquele ano, que eles fizeram a primeira turnê propriamente dita pela América. Em um mês fora de casa, eles passaram por vinte cidades americanas e três canadenses. No dia 23 de agosto, os Beatles se apresentaram para quase 19 mil pessoas no Hollywood Bowl. Após o show, a banda participou de uma festa que durou até a madrugada, onde estavam algumas estrelas da época como Joan Baez. 

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É provável que a canção tenha nascido na noite do dia 24 de agosto. Naquela tarde, Brian Epstein levou os Beatles para participarem de uma festa beneficiente para a Haemophilia Foundation. O mais cansativo de tudo era que cada celebridade que lá estava precisava levar uma criança para a festa, e esse era o tipo de evento que John Lennon odiava. Burt Lancaster convidou os rapazes para uma festa em sua casa quando saíssem dali e, segundo fontes, o único que preferiu ficar no hotel compondo uma música fora John. Levando em consideração as exigências cansativas que a banda estava passando e o humor que Lennon estava sentindo, 24 de agosto se tornou a noite ideal para se escrever “I Don’t Want To Spoil The Party”. Outro detalhe que reforça essa teoria é a declaração de John que a música era “profundamente pessoal”.

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Os Beatles na festa para a Haemophilia Foundation.

“I Don’t Want To Spoil The Party” foi gravada nos estúdios de Abbey Road no dia 29 de setembro de 1964, pouco mais de um mês depois de Lennon escrevê-la.

A história da canção Tomorrow Never Knows

“Tomorrow Never Knows”, a faixa de encerramento do “Revolver”, fora a primeira a ser gravada, começando no dia 6 de abril de 1966, uma quarta-feira. Até aquele momento, com certeza, era a composição mais experimental dos Beatles. Além de a musicalidade em si causar certa estranheza nos fãs, John decidira criar em sons e palavras uma faixa que remetesse à experiência com LSD. Como base para as palavras, fora usado o livro The Psychedelic Experience, de 1964, escrito por Timothy Leary, o guru do LSD, e readaptado do antigo Livro Tibetano dos Mortos. 

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Barry Miles, um sujeito que cuidava da Indica Books, em Southampton Row, e era muito influente na cena alternativa britânica dos anos 1960, tinha um acordo de mandar revistas e jornais importantes para os Beatles. Leary, o famoso guru do LSD, havia passado aproximadamente sete semanas no Himalaia estudando o budismo tibetano com Lama Govinda, resultando no livro The Psychedelic Experience. Segundo Leary: “Eu fazia perguntas ao Lama Govinda e depois tentava traduzir o que ele tinha dito para algo útil para as pessoas. O Livro dos Mortos na verdade significa o ‘Livro dos Mortais’, mas é o seu ego, não o seu corpo, que está morrendo. O livro é um clássico. É a Bíblia do budismo tibetano. O conceito do budismo é o vazio e alcançar o vazio – foi o que John captou na música”. As palavras contidas no Livro Tibetano dos Mortos serviam como guia para as desilusões que aparecem com a aproximação da morte. Quando tomaram LSD, muitas pessoas viveram a experiência da morte do ego, então as palavras do livro poderiam servir para confortar os usuários e protegê-los do pânico. Segundo algumas versões, John fez uma fita com as palavras escritas por Timothy para escutar com fone de ouvido durante uma de suas “viagens” de LSD. 

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Timothy Leary.

Para suavizar essa inovadora enxurrada de sons e imagens alucinógenas, John decidiu batizar a canção com um dos chavões de Ringo, os famosos “ringoísmos”, assim como “A Hard Day’s Night”. Embora alguns autores de livros afirmem que a música fora chamada, provisoriamente, de “The Void”, Mark Lewisohn afirma que as folhas de registros das gravações e as caixas das fitas referem-se à canção gravada naquele dia como “Mark I”. O som mais marcante da canção, provavelmente, são os loops de fita que apareceram graças às experiências dos Beatles com gravadores, especialmente de Paul McCartney. “Ele tinha um Grundig. E descobriu que movendo o cabeçote de apagamento e ativando o loop podia encher a fita com um único ruído. Ficava girando até que a fita não conseguisse mais absorver nada, então ele a trazia e tocava”, conta George Martin. Outro detalhe marcante da canção são os vocais de John Lennon. A partir de 1:27, a voz de John passou a ser alimentada através de um alto-falante giratório Leslie dentro de um órgão Hammond, o que dá a impressão de que a voz está saindo de um túnel. George Martin recorda que John Lennon queria soar como se fosse Dalai Lama cantando do topo da maior montanha, e ainda assim ouvir as palavras que ele próprio estava cantando. Outras pessoas recordam também que John solicitou que a canção tivesse o som de 4.000 monges tibetanos cantando ao fundo.