Arquivo da categoria: ARTIGOS

O dia em que os Beatles tocaram para apenas 18 pessoas

Pouco tempo depois de conhecerem e assinarem contrato com Brian Epstein e ansiosos para explorar a Inglaterra além de Liverpool, os Beatles decidiram aceitar a proposta do promotor de eventos Sam Leach de uma apresentação no sul do país. Empolgados com a possibilidade de serem vistos por executivos de gravadoras que se recusavam a visitar Liverpool, os Beatles acabaram chegando em Aldershot, uma cidade militar, no dia 9 de dezembro de 1961.
00
A grande noite no Palais Ballroom fora anunciada em folhetos e cartazes como uma batalha de bandas entre Liverpool, representada pelos Beatles, e Londres, representada pelo grupo Ivor Jay and the Jaywalkers, além de outros dois grupos de estrelas, que não tiveram seus nomes registrados no cartaz. Segundo Sam Leach, ele colocou um anúncio para o evento no Aldershot News, e enviou um cheque de 100 libras para cobrir os custos, mas o jornal se recusou a descontá-lo por não ser um anunciante frequente, e novos clientes eram obrigados a fazer o pagamento em dinheiro. Sem o contato de Leach para explicar o ocorrido, o jornal não entrou em contato com Sam e o anúncio nunca aconteceu.
poster1
Os Beatles partiram de Liverpool muito cedo no dia 9 de dezembro de 1961, acomodados em uma van dirigida por Terry McCann, amigo de Sam Leach, enquanto Sam fora de carro acompanhado de um motorista, Dave Johnstone. Ao chegarem ao local da apresentação, encontraram as portas trancadas, e tiveram que esperar alguém aparecer com as chaves e abri-lo. Depois de montarem os equipamentos, afinarem os instrumentos e passarem o som rapidamente, eles saíram para convidar qualquer pessoa que passasse por eles para a apresentação, e depois voltaram com algumas garrafas de cerveja.
Em certo momento do show, desanimados com a falta de espectadores, Pete Best abandonou a bateria e deixou que o motorista Terry a tocasse, John e Paul começaram a tocar acordes errados na guitarra e passaram a cantar as músicas trocando palavras e frases da canção original. Pouco depois, exaustos e decepcionados, George e John desceram do palco, vestiram seus sobretudo e começaram a dançar pelo salão.
22
Mesmo com todo o esforço que fizeram para não se deixarem abater pela falta da fiel plateia que lotava os shows em Liverpool, os Beatles só se animaram um pouco quando Sam Leach trouxe as garrafas de cerveja Watneys Brown Ale e jogaram futebol na vazia pista de dança com algumas bolas de bingo. Conforme a bebida ia descendo e as brincadeiras ficando mais animadas, os gritos e a bagunça começaram a aumentar consideravelmente. Um vizinho, cansado de tanto barulho, chamou a polícia local, por volta de uma da manhã. Ao se depararem com alguns carros policiais ao lado de fora do salão de baile, a banda fora orientada a deixar a cidade imediatamente e não voltar mais.
21
De volta à estrada e sem ter para onde ir, a banda partiu para Londres, onde improvisaram uma apresentação no Blue Gardenia Club, no Soho, na madrugada de 10 de dezembro. No sábado seguinte, foi a vez do Rory Storm e os Hurricanes, banda de Ringo, tocar em Aldershot, também organizado por Leach. Dessa vez, com o anúncio do jornal devidamente publicado, 210 pessoas apareceram para o show.
03
Anúncios

A viagem que John e Paul fizeram juntos a Paris, em 1961

Em julho de 1961, acabava a segunda temporada de apresentações dos Beatles em Hamburgo. Desta vez, muito diferente da primeira, eles não voltaram demasiadamente decepcionados. Pelo contrário, agora eles voltavam para Liverpool com um disco gravado, acompanhando Tony Sheridan, uma semana antes de voltar para casa. Nem deu tempo de participarem do lançamento, mas isso era o menos importante. Em setembro, George Harrison recebeu uma cópia do disco “My Bonnie”, que rapidamente se tornou atração na cidade.

No dia 9 de outubro, John Lennon completaria seu 21º aniversário, e entre os presentes que ganhara estavam 100 libras, recebido antecipadamente de sua tia Mater. John Lennon decidira que usaria o dinheiro para fazer uma viagem até a Espanha, porém, ao saber que Jürgen Vollmer, um grande amigo de Hamburgo, estava morando em Paris, a rota da viagem fora alterada. Segundo Paul: “Nós planejamos pegar carona até a Espanha. Eu já tinha pegado algumas caronas com George e nós sabíamos que você tinha que ter um artifício; nós éramos bastante rejeitados e vimos que caras que tinham um artifício (como usar a bandeira do Reino Unido em volta deles) sempre conseguiam as caronas. Então eu disse a John, ‘vamos arranjar um par de chapéus-coco’. Era o showbiz nascendo na gente. Nós ainda tínhamos nossas jaquetas de couro – tínhamos muito orgulho delas para não usá-las, no caso de encontrarmos algumas garotas; e se de fato encontrássemos alguma garota, sumíamos com os chapéus-coco. Mas para as caronas nós usávamos os chapéus-coco. Dois caras com chapéus-coco – um caminhão pararia! Senso de humor. Isso, e o trem, foi como chegamos a Paris”.

John, que dissera para sua tia Mimi que estava viajando para vender seus quadros, e Paul (Cynthia Powell, namorada de John, também iria, mas estava terminando suas atividades do último ano da faculdade), partiram entre o dia 30 de setembro e 1º de outubro, para uma merecida férias de duas semanas na capital francesa. Entretanto, com a partida repentina da dupla, George Harrison e Pete Best chegaram a acreditar que a banda poderia se separar. “Ontem à noite eu ouvi que John e Paul haviam ido a Paris para tocar juntos”, dissera Stuart Sutcliffe. “Em outras palavras, a banda havia acabado! Soou como uma loucura para mim, eu não acredito nisso”.

01

John e Paul chegaram a Paris exaustos e se hospedaram em um pequeno hotel da cidade. Andavam quilômetros, todos os dias, e se sentavam em alguns bares. Em um deles, em Montmartre, eles assistiram a uma cômica apresentação do rockeiro francês Johnny Hallyday. Em uma das visitas da dupla a um brechó, acabaram encontrando uma inovação da moda: calças boca de sino. Ambos decidiram comprar uma cada um. Então voltaram para o hotel, vestiram a recente aquisição e saíram para a rua. Em pouco tempo perceberam que não saberiam lidar com aquilo e voltaram correndo para o hotel, a fim de tirá-las e levar para apertar.

Jürgen Vollmer havia se mudado para a França com o propósito de estudar fotografia trabalhando como assistente do fotógrafo William Klein. Vollmer usava o penteado que Astrid Kirchherr havia encorajado Stuart e Klaus Voorman a adotar, que consistia em pentear os cabelos para a frente. Depois de alguns dias na cidade, John Lennon e Paul McCartney decidiram que queriam fazer o mesmo. O amigo dissera-lhes que gostava deles como rockeiros, mas insistiram tanto que Vollmer aceitou fazer a mudança. Ainda era uma pequena versão do que realmente se tornaria o famoso penteado dos Beatles, mas mudara completamente as expressões de John e Paul. A transformação aconteceu nos fundos do Hôtel de Beaune. Jürgen pegou a tesoura e cortou os cabelos para que ficassem para a frente e para os lados, trocando a rigidez da brilhantina pela maciez do novo corte. Como John lembrou em 1963: “Jürgen tinha um estilo de cabelo para baixo com uma franja na frente, o qual preferimos usar também. Nós fomos pra casa dele então lá ele cortou – dilacerou seria uma palavra mais apropriada – nosso cabelo da mesma forma”.

09

No dia 9 de outubro, pouco antes de retornarem a Liverpool, John Lennon comemorou seu 21º aniversário com Paul McCartney, em Paris. Em 1963, John contou como a data fora comemorada com o amigo: “Paul me comprou um hambúrguer para celebrar-mos. Eu não estava muito feliz por chegar aos 21. Eu me lembro de uma parente me dizendo, ‘de agora em diante, é ladeira abaixo’, e isso realmente me abalou. Ela me contou como minha pele envelheceria e esse tipo de coisa”.

02

A história do “Mersey Beat”, a revista que faz parte da história dos Beatles

O Mersey Beat nascera de uma ideia de Bill Harry, que era colega de John Lennon na escola de artes. Bill vira John pela primeira vez em setembro de 1957, durante um intervalo nas aulas. Lennon chamou a atenção de todos rapidamente, vestindo-se de uma forma extravagante e distinguindo-se dos demais alunos. Conforme o susto passava, as atenções em John Lennon começaram a ficar em segundo plano, com exceção de Bill Harry, que ficara fascinado por aquele teddy boy, e pensou: “Preciso conhecer esse cara”.

Completamente diferente de John, Bill Harry vinha de uma infância muito pobre em Parliament Street, perto das docas de Liverpool, e lutou pelos seus interesses e para ingressar na universidade. Bill se tornara um leitor compulsivo desde que teve contato com alguns livros de ficção científica de um primo, e passou a ler tudo que podia à luz de velas, já que sua casa não possuía luz elétrica. Quando tinha 13 anos, ler já não era o bastante para Harry, que começara a escrever e desenhar sua própria revista de ficção científica, chamada Biped, durante as madrugadas, enquanto lia suas revistas de Tarzan e fanzines. Ao chegar na escola de artes, como bolsista, ele fundou a Premier, uma revista escolar. Aos 16 anos, Bill Harry chegou ao Liverpool College of Art. Além da aparência e da atitude de John, os interesses em comum entre ambos atraiu Bill, que pediu para ler um pouco do trabalho de Lennon durante uma hora de almoço no Ye Cracke, um pub muito frequentado pelos estudantes de arte. Esperando mais uma imitação adolescente costumeira, Bill se surpreendeu ao deparar-se com um divertido pastiche que o fez gargalhar alto. 

Além da profunda admiração entre ambos, Bill Harry fora responsável por apresentar uma das pessoas mais importantes da vida de John Lennon: Stuart Sutcliffe. Rapidamente, John fora incluído no círculo de amigos de Bill, e se viu cercado de pessoas com grandes pretensões artísticas, que passaram a admirar suas habilidades como desenhista e seu humor apurado. 

1

Bill Harry.

 

Antes de fundar o Mersey Beat, Bill Harry se aventurou em outras criações, como as revistas Jazz, Pantosphinx e uma revista produzida pela loja de música local Frank Hessy’s. Essa última, que chamava-se Frank Comments, deu a Bill Harry uma vontade de aprofundar-se na cena musical de Liverpool. No início de 1960, Bill conheceu Virginia, sua futura esposa, em um café de Liverpool, o Jacaranda. Harry estava planejando publicar uma revista sobre jazz, a Storyville/52nd Street, mas optou por dedicar-se à cena musical local. Empolgado com a emergente cena de rock’n’roll que dominava a cidade, ele se aprofundou no assunto, que ainda não tinha muito espaço nos jornais locais e nacionais, e decidiu fazer suas próprias publicações. 

Com 50 libras emprestadas de Jim Anderson, que um amigo em comum apresentou no Jacaranda, Bill Harry e Virginia alugaram um pequeno quarto no sótão acima de uma loja de vinho, na Renshaw Street, por 5 libras por semana. Virginia deixou seu emprego em uma firma de contabilidade de Woolworth e, com uma máquina de escrever Olivetti, começaram a coletar material para a primeira edição da nova ideia. 

2

Bill Harry e Virginia.

A primeira edição do Mersey Beat, fora lançada no dia 6 de julho de 1961. Não se esperava muita coisa da publicação, pois se parecia muito mais com um jornal de estudantes, mas não foi o que aconteceu. Até então, ninguém no Norte havia dedicado mais do que uma ou duas linhas para o rock’n’roll, e ali estava uma edição completa sobre o ritmo que vinha transformando a vida dos jovens ingleses. 

Logo na primeira publicação da revista, Bill Harry aproveitou de sua amizade com John Lennon e pediu-lhe que escrevesse uma breve história dos Beatles, antes que o grupo partisse para a Alemanha. A primeira edição do Mersey Beat fora lançada quatro dias depois do retorno dos rapazes de Hamburgo, e trazia a colaboração de Lennon logo na primeira página, ocupando metade dela:

UMA BREVE DIGRESSÃO SOBRE AS DÚBIAS ORIGENS DOS BEATLES
(traduzido por John Lennon)

 Era uma vez três garotinhos chamados John, Paul e George, assim batizados. Decidiram se juntar porque era do tipo que se junta. Quando estavam juntos eles se perguntaram pra que afinal, pra quê? Então de repente guitarras cresceram neles e bolaram um barulho. Curiosamente, ninguém se interessou, menos ainda os três homenzinhos. E a-a-a-í-í-í-í ao descobrirem um quarto homenzinho ainda menor chamado Stu Sutcliffe correndo atrás deles eles disseram: “Filho, arranje um baixo elétrico que você vai se dar bem” e ele arranjou – mas não se deu bem porque não sabia tocar. Então sentaram-se confortavelmente sobre ele até que conseguiu tocar. Ainda assim não havia ritmo e um velho senhor bondoso disse, aspas: “Tu não possuis bateria”. Temos bateria, sim, chutaram eles. Assim, um montão de bateristas entraram e saíram. De repente, na Escócia, em turnê com Johnny Gentle, o grupo chamado os Beatles descobriu que não tinha um som muito legal porque não tinha amplificadores. Conseguiram alguns.
 Muitas pessoas perguntam o que são os Beatles? Por que Beatles? Argh, Beatles, como surgiu esse nome? Pois então vamos lhes contar. Veio numa visão – um homem apareceu numa torta flamejante e disse para eles: “A partir deste dia vocês são Beatles com um A”. Obrigado, meu caro senhor, eles disseram, agradecendo-lhe.

3

Primeira edição do Mersey Beat.

 

Bill Harry conseguiu produzir 5 mil exemplares da revista em formato de jornalzinho, e saiu pelas ruas de Liverpool distribuindo-os. A grande maioria das bancas e livrarias da região concordaram em vender a inovadora publicação, mas apenas um ou dois exemplares de cada número. O preço era de 3 pence por exemplar, que era divido com o varejista. 

Rapidamente, o quinzenal Mersey Beat se tornou uma leitura essencial para todos os fãs da cena musical de Liverpool, trazendo informações sobre centenas de grupos de rock que não paravam de ser formados na cidade. Os Beatles frequentemente estavam nas páginas da revista, desde os primeiros passos da fama, ainda em Liverpool, até o contrato de gravação e o reconhecimento mundial. 

O dia em que os Beatles destruíram o palco do Kaiserkeller

Um dos grandes problemas de se tocar em Hamburgo, eram os palcos. Mesmo quando o lugar era muito disputado entre as bandas não se podia esperar muito além de umas tábuas de madeira empenada apoiadas em caixotes vazios de Schweppes. Com o Kaiserkeller, clube em que os Beatles estavam tocando, não era diferente. Além da precariedade da construção, o Kaiserkeller possuía um outro problema com o palco. Pouco depois dos Beatles terem chegado a Hamburgo, os Seniors tinham estourado a plataforma, fazendo o palco pender para um lado sempre que alguma apresentação estava acontecendo. Bruno Koschmider, o dono, prometia contratar alguém para fazer o conserto, mas a promessa nunca se concretizara. Sabendo que isso provavelmente nunca aconteceria por conta própria, os Beatles decidiram dar uma pequena ajuda ao patrão, e arrumar um jeito de quebrar o que ainda restava do palco.

Rory Storm and the Hurricanes em frente ao Kaiserkeller

Rory Storm and the Hurricanes em frente ao Kaiserkeller

O método mais seguro que encontraram para acabar com o palco do Kaiserkeller era as batidas de pé. Castigar as tábuas do palco com os saltos das botas de cowboy enquanto tocavam rock’n’roll no volume máximo era uma forma sutil de protestar contra as condições de trabalho, e o plano começou imediatamente, rendendo até uma aposta entre os grupos para ver quem seria o primeiro a quebrá-lo. Os primeiros a tentar foram os Beatles, com uma apresentação furiosa de Roll Over Beethoven. Quando John começava a cantar o refrão, Paul, George e Stuart começavam a bater os pés no chão com os saltos das botas freneticamente. A cena se tornara mais engraçada ainda pelo fato dos três integrantes irem para o centro do palco aplicar os golpes nas tábuas, porque se acreditava que era o lugar mais frágil para acabar com o cenário. Perto do fim da semana, após inúmeras pancadas dos Beatles e do Rory Storm and the Hurricanes, banda de Ringo, uma pequena fissura se abriu nas tábuas. Em uma conversa sobre o assunto, decidiram que o fim definitivo daquele velho palco seria na sexta-feira.

2

Quando a grande noite chegou, eles fizeram de tudo para derrubar o palco, batendo com os pés no chão com toda a força. Como Pete Best lembra, “ele [o palco] continuava firme ali e ficamos frustrados”. Depois de quatro blocos de músicas e muitas pancadas nas tábuas, eles desistiram e atravessaram a rua para um café. Enquanto isso, a banda de Rory Storm subia ao palco, que já estava em más condições depois de tanto empenho da banda anterior. Exausto e sem obter o resultado esperado, Rory fez um último grande esforço e empurrou o pequeno piano para onde as tábuas pareciam mais frágeis. Depois de um enorme barulho, as tábuas começaram a se mover, formando um “V” ao redor de Rory e fazendo-o desaparecer. Em pouco tempo, todos os equipamentos começaram a escorregar para dentro do buraco. Bruno Koschmider viera correndo de seu escritório para ver o prejuízo. Furioso, ele afastou a banda do palco, e constatou que estava tudo perdido. A música ao vivo fora substituída por jukebox e os Hurricanes foram para o Harold’s se juntar aos Beatles e comemorar.

Ringo tocando na banda de Rory

Ringo tocando na banda de Rory

Eles se reuniram em uma única mesa, pediram tigelas de flocos de milho com leite gelado e começaram a contar histórias, eufóricos com a vitória que tiveram contra Bruno Koschmider. De repente, as gargalhadas e brindes fora interrompidos pela porta abrindo bruscamente. Era Koschmider e seus seguranças. Eles foram acuando todos os integrantes contra as paredes, até que começaram a pular por cima das mesas, derrubando flocos de milho e leite para todos os lados, enquanto eram golpeados pelos seguranças de Bruno como castigo. No dia seguinte, ainda marcados pelas pancadas do dia anterior, todos chegaram ao Kaiserkeller um pouco mais cedo que o esperado. Estavam ansiosos para ver o novo palco que os esperava para o show. Para a decepção de todos, não havia mudado muita coisa. O velho palco fora apenas consertado provisoriamente, com algumas tábuas novas jogadas por cima dos mesmos caixotes de refrigerante, e cadeiras sendo usadas como suporte. Mais uma vez, os Beatles teriam que subir ao palco sem reclamar e tocar rock’n’roll, ou o sonho de gravar um disco e tocar em grandes palcos acabaria muito antes do esperado.

4

Os Beatles no Harold’s Cafe.

O dia em que um menino de 12 anos recusou John Lennon

Marc, que John escrevera errado na carta, poderia ser um de seus amigos hippies, mas era apenas um garoto de 12 anos. O pequeno Marc morava com os pais no apartamento vizinho na Bank Street 105 quando John e Yoko se mudaram para o endereço. Logo os Lennon fizeram amizade com a família de Marc por frequentarem a mesma área da cobertura. O garoto de 12 anos conquistou John e costumava passar horas no apartamento do vizinho famoso vendo-o compor e tocar instrumentos. Ao saberem que o aniversário de Marc estava chegando, John disse aos pais dele que ele e Yoko iriam à festa. Quando o garoto descobriu o plano de receber a ilustre visita, ele acabou não gostando, e disse que preferia que não fossem. John entendeu a insegurança do pequeno amigo e escreveu-lhe uma carta carinhosa tranquilizando-o e dizendo que eles se encontrariam no terraço da cobertura.

digitalizar0001

Para: Mark
Data: qualquer uma
De: vizinho ao lado
Assunto: para ser retomado

Querido Mark,
Soube que você não quer nos convidar para a festa! – lemos isso no seu rosto/mente, nos sentimos tão mal quanto você! sobre isso?! Por favor, não se preocupe com isso – talvez eu encontre um amplificador antigo para você – você é um cara sensível e a gente compreende,
Vejo você no terraço da cobertura.
      Com amor
            John & Yoko

John brinca que queria decapitar Paul em capa de disco

Em 1966, a Capitol Records decidiu lançar um álbum chamado “Yesterday and Today”, com algumas canções que haviam sido excluídas das versões americanas abreviadas de “Help!” e “Rubber Soul”, junto com os compactos “Paperback Writer” e “Rain”. Apesar do método repulsivo praticado frequentemente pela Capitol, os Beatles deveriam fornecer uma capa para o disco. Eles foram estimulados a cederem uma foto de alguma sessão fotográfica antiga, mas queriam alguma coisa diferente. Brian Epstein logo entrou em ação e colocou-os em contato com Robert Whitaker, um fotógrafo que usava ideias mais surrealistas e ousadas. 

1

No dia 25 de março, os Beatles foram a um estúdio alugado por Whitaker em uma área elegante de Londres, no segundo piso de um prédio em 1 The Vale, no Chelsea. Ao entrarem no estúdio, se depararam com restos de açougue, como linguiças com pimenta, cabeça de porco e carnes cruas, além de aventais e bonecas desmembradas. Aos poucos, o fotógrafo começou a compor a cena da sessão. John, Paul, George e Ringo foram fotografados segurando um monte de linguiça, que representaria o cordão umbilical, para enfatizar que eles eram seres humanos e nasceram da mesma forma que todos os outros, à frente de uma jovem sentada em um banco de madeira. Além de John segurando uma caixa de papelão com o número 2.000.000 com Ringo “dentro” e George martelando pregos enormes de carpinteiro na cabeça de John, chamando a atenção para o fato de que eles eram completamente reais. Depois, Bob pediu que os Beatles vestissem os aventais, sentassem em um banco e distribuiu as carnes pelo colo do grupo, com uma cuidadosamente posta no ombro direito de John. No começo, aquilo tudo soava “grosseiro e estúpido” e um tanto quanto confuso para eles. No entanto, no final da sessão, quando Whitaker colocou quatro bonecas decapitadas entre eles e deu a cabeça para segurarem, a banda começou a entender o que realmente significava tudo aquilo. Era exatamente como os Beatles se sentiam, com seus discos sendo “esquartejados”. Décadas depois, Bob Whitaker negou que a capa fosse um protesto dos Beatles em relação ao tratamento recebido da imprensa e do público, dizendo que a ideia fora inteiramente sua. De qualquer forma, de uma maneira ou de outra, a banda se sentia realmente assim. 

2

A capa fora entregue à Capitol na semana seguinte. Infelizmente para a gravadora, cerca de 750 mil exemplares já haviam sido impressas para o mercado americano, além do material promocional, quando os executivos avisaram Alan Livingston, o presidente da Capitol, sobre o sentido daquela capa. Ele ordenou que todas as capas fossem tiradas de circulação, mas, levando em consideração a ansiedade que um lançamento dos Beatles provocava, alguns exemplares acabaram se salvando. Por conta da raridade, elas se tornaram valiosas peças de colecionador, mais procuradas até do que os discos que foram cobertos por um adesivo com outra capa, a maneira mais barata adotada para a substituição dos discos que já estavam impressos. Sabendo da raridade da capa original, até mesmo os Beatles acabaram guardando alguns exemplares consigo. 

3

Em 1978, 12 anos após o lançamento, John Lennon ainda guardava algumas cópias, e acabou enviando um exemplar para um destinatário desconhecido, com um breve comentário anexado. Nele, John brinca que a ideia original era decapitar Paul, mas ele não havia aprovado. Hunter Davies diz que o proprietário atual é Pete Nash, que a comprou em um leilão em 1995. Segundo Pete, é provável que o sortudo destinatário da raridade devesse ser um amigo muito próximo ou um parente. 

4

O que eu posso dizer? Esta é a famosa capa do “açougueiro”. É tão horrorosa & bááá até de ver! (Então não olhe) mas pode vendê-la por 11 milhões de dólares. Minha ideia inicial para a capa era melhor – decapitar Paul – mas ele não concordou

John Lennon

O dia em que John Lennon furtou uma guitarra

Entre 26 e 31 de outubro de 1959, Carroll Levis realizava as eliminatórias do concurso “Star Search”, no Liverpool Empire. Apesar de John afirmar que o ritmo da banda estava nas guitarras, não ter um baterista não deixava o grupo ir muito longe. Para ocultar esse problema e conseguirem ter alguma chance no concurso, eles se apresentaram como um trio vocal. John estava no meio, sem guitarra, com George e Paul aos lados. George, destro, ficava ao lado direito de John. E Paul, canhoto, ficava ao lado esquerdo. Assim, inteligentemente, os braços dos instrumentos ficavam virados para lados opostos, enquanto John Lennon cantava com as mãos nos ombros dos amigos.

2

Além da apresentação com um contato físico tão intimo, o que era inovador, eles decidiram dar um fim definitivo no que ainda restava de skiffle na banda: o nome. Johnny and the Moondogs fora escolhido às pressas, para o Carroll Levis Show, provavelmente uma homenagem ao programa de rádio da WJW, “The Moondog Show”, de Alan Freed. Nomes assim, com um líder, eram comuns naqueles tempos, como Cliff Richard and the Shadows. Quase que naturalmente, se o grupo precisava de um líder, este seria John Lennon. Com um nome e um líder definido, eles partiram para as eliminatórias, no dia 18 de outubro, o segundo domingo de competição. Com uma apresentação vocal brilhante, que mais tarde se tornaria mundialmente conhecida, John, Paul e George se classificaram para as finais em duas semanas de apresentações e, depois de mais uma eliminatória, Johnny and the Moondogs fora finalmente classificado para a grande final, em Manchester. No dia 15 de novembro de 1959, o Manchester Hippodrome recebia um número excessivo de candidatos, ocupando o dia inteiro só para fazer a inscrição obrigatória. Segundo Ray Ennis, do Swinging Blue Jeans, “chegamos lá de manhã, e havia uma fila que dava a volta no local. Eram centenas de jovens, todos arrastando instrumentos e amplificadores. Já eram 4 horas e ainda não havíamos entrado”.

1

John, Paul e George partiram de Liverpool em um trem, levando consigo um pequeno grupo de amigos, conseguindo chegar em Manchester na hora exata do ensaio. “Ficamos nos bastidores esperando o público entrar”, conta Arthur Kelly, um dos amigos. “Então fomos para a frente da plateia, para assobiar e aplaudir com toda a força. Assim, o palmômetro poderia atingir o nível mais alto possível”. A banda tocou “Think It Over”, de Buddy Holly, com John no vocal principal. A apresentação foi espetacular, deixando os integrantes completamente confiantes em uma possível vitória. Porém, o sistema do Carroll Levis Show consistia em que, no final das apresentações, cada grupo voltava para o palco e repetia um pequeno trecho de seu número, enquanto a platéia fazia seu ultimo julgamento, aplaudindo conforme sua avaliação no final do trecho. O grupo mais aplaudido, no final das reapresentações, seria o grande campeão. 

3

O sistema de julgamento de Carroll Levis acabaria tirando qualquer chance do Johnny and the Moondogs ganhar a competição. Como eram rapazes pobres de Liverpool, não contavam com nenhum tipo de transporte especial para se locomoverem, não poderiam perder o último trem de volta para casa. O último trem partia às 21h47 e, com menos de 1 libra no bolso, eles ficavam cada vez mais nervosos com a situação a cada nova reapresentação e aplausos. Às 21h20, mais de uma dúzia de grupos estavam esperando para a apresentação final, o que era muito para permitir que voltassem ao palco mais uma vez antes do trem partir. Desiludidos com a oportunidade de aparecerem na televisão, eles decidiram pegar suas coisas e irem embora. Enquanto John, Paul e George saíam em silêncio, ouvindo ao fundo os aplausos da plateia, eles toparam, na saída do palco, com vários instrumentos empilhados. Os instrumentos eram dos grupos que estavam se apresentando naquela final. Sem nenhum tipo de vigia por perto, John ficou olhando para as guitarras e, quando chegaram perto da saída, ele simplesmente pegou uma das guitarras e saiu às pressas do local. 

4

Foto por Jean Catharell.

A guitarra era uma Dallas Tuxedo e, depois de entrar em Mendips – casa que John morava com sua tia –, ela não sairia da porta para fora por décadas. Em agosto daquele ano, John havia comprado outra guitarra, paga por sua tia. Logo, a Tuxedo acabou não sendo usada em apresentações, não deixando pista alguma para o verdadeiro dono da guitarra reencontrá-la. Em 1996, construtores encontraram alguns itens no sótão, completamente empoeirados pelo tempo. Ernest Burkey se mudara para Mendips na década de 1960, quando John comprou outra casa para tia Mimi, já que Liverpool se tornara muito desconfortável para a mulher que criara o beatle. Não sendo um fã dos Beatles, Burkey não havia chegado perto do sótão, com medo do que poderia encontrar ali. Ernest chegou a declarar à imprensa local sobre os fãs que vinham importunando sua privacidade pedindo para entrar na casa. Nem mesmo Yoko Ono podia passar do portão para dentro. Em algum momento de 1996, Ernest Burkey abriu o sótão para um colecionador e fã dos Beatles, presenteando-lhe com a guitarra Dallas e duas revistas de banjo que, provavelmente, pertencera à mãe de John e que ele usara no começo de sua educação musical. Depois de descoberta, a guitarra foi posta em exibição na The Beatles Story.

tuxedo06

Foto da guitarra furtada no quarto de John, que era usado como depósito pelo novo proprietário.