A história do “Mersey Beat”, a revista que faz parte da história dos Beatles

O Mersey Beat nascera de uma ideia de Bill Harry, que era colega de John Lennon na escola de artes. Bill vira John pela primeira vez em setembro de 1957, durante um intervalo nas aulas. Lennon chamou a atenção de todos rapidamente, vestindo-se de uma forma extravagante e distinguindo-se dos demais alunos. Conforme o susto passava, as atenções em John Lennon começaram a ficar em segundo plano, com exceção de Bill Harry, que ficara fascinado por aquele teddy boy, e pensou: “Preciso conhecer esse cara”.

Completamente diferente de John, Bill Harry vinha de uma infância muito pobre em Parliament Street, perto das docas de Liverpool, e lutou pelos seus interesses e para ingressar na universidade. Bill se tornara um leitor compulsivo desde que teve contato com alguns livros de ficção científica de um primo, e passou a ler tudo que podia à luz de velas, já que sua casa não possuía luz elétrica. Quando tinha 13 anos, ler já não era o bastante para Harry, que começara a escrever e desenhar sua própria revista de ficção científica, chamada Biped, durante as madrugadas, enquanto lia suas revistas de Tarzan e fanzines. Ao chegar na escola de artes, como bolsista, ele fundou a Premier, uma revista escolar. Aos 16 anos, Bill Harry chegou ao Liverpool College of Art. Além da aparência e da atitude de John, os interesses em comum entre ambos atraiu Bill, que pediu para ler um pouco do trabalho de Lennon durante uma hora de almoço no Ye Cracke, um pub muito frequentado pelos estudantes de arte. Esperando mais uma imitação adolescente costumeira, Bill se surpreendeu ao deparar-se com um divertido pastiche que o fez gargalhar alto. 

Além da profunda admiração entre ambos, Bill Harry fora responsável por apresentar uma das pessoas mais importantes da vida de John Lennon: Stuart Sutcliffe. Rapidamente, John fora incluído no círculo de amigos de Bill, e se viu cercado de pessoas com grandes pretensões artísticas, que passaram a admirar suas habilidades como desenhista e seu humor apurado. 

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Bill Harry.

 

Antes de fundar o Mersey Beat, Bill Harry se aventurou em outras criações, como as revistas Jazz, Pantosphinx e uma revista produzida pela loja de música local Frank Hessy’s. Essa última, que chamava-se Frank Comments, deu a Bill Harry uma vontade de aprofundar-se na cena musical de Liverpool. No início de 1960, Bill conheceu Virginia, sua futura esposa, em um café de Liverpool, o Jacaranda. Harry estava planejando publicar uma revista sobre jazz, a Storyville/52nd Street, mas optou por dedicar-se à cena musical local. Empolgado com a emergente cena de rock’n’roll que dominava a cidade, ele se aprofundou no assunto, que ainda não tinha muito espaço nos jornais locais e nacionais, e decidiu fazer suas próprias publicações. 

Com 50 libras emprestadas de Jim Anderson, que um amigo em comum apresentou no Jacaranda, Bill Harry e Virginia alugaram um pequeno quarto no sótão acima de uma loja de vinho, na Renshaw Street, por 5 libras por semana. Virginia deixou seu emprego em uma firma de contabilidade de Woolworth e, com uma máquina de escrever Olivetti, começaram a coletar material para a primeira edição da nova ideia. 

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Bill Harry e Virginia.

A primeira edição do Mersey Beat, fora lançada no dia 6 de julho de 1961. Não se esperava muita coisa da publicação, pois se parecia muito mais com um jornal de estudantes, mas não foi o que aconteceu. Até então, ninguém no Norte havia dedicado mais do que uma ou duas linhas para o rock’n’roll, e ali estava uma edição completa sobre o ritmo que vinha transformando a vida dos jovens ingleses. 

Logo na primeira publicação da revista, Bill Harry aproveitou de sua amizade com John Lennon e pediu-lhe que escrevesse uma breve história dos Beatles, antes que o grupo partisse para a Alemanha. A primeira edição do Mersey Beat fora lançada quatro dias depois do retorno dos rapazes de Hamburgo, e trazia a colaboração de Lennon logo na primeira página, ocupando metade dela:

UMA BREVE DIGRESSÃO SOBRE AS DÚBIAS ORIGENS DOS BEATLES
(traduzido por John Lennon)

 Era uma vez três garotinhos chamados John, Paul e George, assim batizados. Decidiram se juntar porque era do tipo que se junta. Quando estavam juntos eles se perguntaram pra que afinal, pra quê? Então de repente guitarras cresceram neles e bolaram um barulho. Curiosamente, ninguém se interessou, menos ainda os três homenzinhos. E a-a-a-í-í-í-í ao descobrirem um quarto homenzinho ainda menor chamado Stu Sutcliffe correndo atrás deles eles disseram: “Filho, arranje um baixo elétrico que você vai se dar bem” e ele arranjou – mas não se deu bem porque não sabia tocar. Então sentaram-se confortavelmente sobre ele até que conseguiu tocar. Ainda assim não havia ritmo e um velho senhor bondoso disse, aspas: “Tu não possuis bateria”. Temos bateria, sim, chutaram eles. Assim, um montão de bateristas entraram e saíram. De repente, na Escócia, em turnê com Johnny Gentle, o grupo chamado os Beatles descobriu que não tinha um som muito legal porque não tinha amplificadores. Conseguiram alguns.
 Muitas pessoas perguntam o que são os Beatles? Por que Beatles? Argh, Beatles, como surgiu esse nome? Pois então vamos lhes contar. Veio numa visão – um homem apareceu numa torta flamejante e disse para eles: “A partir deste dia vocês são Beatles com um A”. Obrigado, meu caro senhor, eles disseram, agradecendo-lhe.

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Primeira edição do Mersey Beat.

 

Bill Harry conseguiu produzir 5 mil exemplares da revista em formato de jornalzinho, e saiu pelas ruas de Liverpool distribuindo-os. A grande maioria das bancas e livrarias da região concordaram em vender a inovadora publicação, mas apenas um ou dois exemplares de cada número. O preço era de 3 pence por exemplar, que era divido com o varejista. 

Rapidamente, o quinzenal Mersey Beat se tornou uma leitura essencial para todos os fãs da cena musical de Liverpool, trazendo informações sobre centenas de grupos de rock que não paravam de ser formados na cidade. Os Beatles frequentemente estavam nas páginas da revista, desde os primeiros passos da fama, ainda em Liverpool, até o contrato de gravação e o reconhecimento mundial. 

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