O primeiro violão de John Lennon

O ano de 1956, compreensivelmente, foi o grande despertar da musicalidade de John Lennon. Os compactos de Elvis Presley chegavam da América e logo se tornavam assunto nos pátios e corredores dos colégios de Liverpool. John, como todos os outros jovens, ficara completamente fascinado com a liberdade do rock’n’roll. Mas foi só com o surgimento de Lonnie Donegan, no mesmo ano, que a música ficou realmente acessível para os garotos ingleses. O skiffle rapidamente se tornou a grande sensação da música britânica. De uma hora para outra, grupos de skiffle nasciam com uma frequência assustadora. Os fabricantes, atentos ao novo momento, estocavam aos montes tábuas de lavar roupa e kits de conversão de bacias em baixos-bacia. Os violões, até então empoeirados nas vitrinas por falta de acessibilidade, agora eram facilmente vendidos por reembolso postal. Em pouco tempo, os jornais começaram a publicar notícias sobre a escassez nacional de guitarras e violões. 

Apesar de tia Mimi ter dito muitas vezes depois que ela comprara o violão para John por dezessete libras, fora Julia a responsável por dar a John seu primeiro violão. A loja de instrumentos musicais Hessy’s, que ficava em Whitechapel, era a loja mais completa de Liverpool. John costumava ir até lá para tomar chá no Kardomah Café e observar os instrumentos expostos na vitrina da loja. Como tia Mimi era muito conservadora e fazia questão de manter o sobrinho longe do rock’n’roll, John resolveu mostrar o anúncio que saíra no jornal para Julia, que também amava Elvis e tocava banjo. Julia prometeu a John que compraria, e a busca pelo violão demorara algumas semanas, até que sua mãe finalmente conseguiu encontrar um instrumento comprado por reembolso postal e pago a prestações. Apesar da falta de registro do vendedor, o mais provável é que tenha sido uma firma de reembolso postal chamada Headquarters and General Supplies, em Coldharbour Lane, Londres. 

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John e Julia Lennon

O Gallotone Champion fora importado da África do Sul, e era um modelo meio espanhol, com as cordas de aço. Na boca do violão, o orifício de som, uma etiqueta garantia: “contra rachaduras”.  Apesar das limitações do modelo, ele era consistente o bastante para segurar as notas, e logo que ele fora entregue na casa de Julia, John começou a explorá-lo como podia. Não se sabe exatamente como John deu a notícia para tia Mimi, mas provavelmente ela ficara zangada com a situação, e acabou aceitando os caprichos do sobrinho, como na maioria das coisas que John planejava e ia contra os princípios de sua tia. Outro colega de John que estudava com ele em Quarry Bank havia comprado um violão semelhante ao de John. Embora não fossem verdadeiramente íntimos, decidiram procurar um professor em Hunt’s Cross, que ficava a alguns minutos da casa de John, para tomar algumas aulas de violão juntos. Sem paciência para a teoria metódica do professor, Julia sugeriu a John afinar as quatro cordas mais agudas do violão como um banjo e ignorar as duas mais graves, ela mesma poderia ensinar-lhes todos os acordes necessários para as músicas que desejavam tocar. 

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Foi assim que John começou a construir sua história com a música, que ele usaria nos momentos mais alegres e sombrios de sua vida. A partir dos primeiros contatos com o violão, era praticamente impossível algum amigo chegar a Mendips, abrir a porta do pequeno quarto de John e não vê-lo sentado na beirada da cama, resmungando algumas letras desconexas enquanto trabalhava em novos acordes. Em pouquíssimo tempo John formou seu primeiro grupo com os amigos, que fora batizado de The Blackjacks, mas decidiram mudá-lo para Quarrymen (embora muitos pensem, erroneamente, que se escreva Quarry Men) uma semana depois. Nos dois anos que se seguiram, duas situações que acompanhariam John Lennon para sempre aconteceram, sempre ao lado do seu mais novo inseparável companheiro. No dia 6 de julho de 1957, John estava com seu Gallotone tocando no Garden Fete de St. Peter’s Church, em Woolton, Liverpool, quando conheceu Paul McCartney e iniciou a parceria mais bem sucedida do mundo da música. E, no ano seguinte, o Quarrymen gravou seu primeiro e único disco, contendo That’ll Be The Day e In Spite Of All The Danger, já com Paul McCartney e George Harrison na banda. Ao ver que a relação do sobrinho com o instrumento era verdadeiramente intensa, Mimi tentou protestar, com uma frase que se tornaria placa comemorativa diante da declaração mais absurda que ela poderia ter dito em vida: “Tudo bem com a guitarra, John, mas você jamais vai ganhar a vida com ela”.

John Lennon tocando em St. Peter’s Church com seu Gallotone

John Lennon tocando em St. Peter’s Church com seu Gallotone

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