A história da canção Ob-La-Di Ob-La-Da

A primeira vez que Paul McCartney ouviu as palavras “Ob-la-di Ob-la-da” foi por meio de Jimmy Scott, um músico nigeriano que tocava conga no clube Bag o’Nails – onde Paul McCartney conheceu Linda Eastman – , no Soho, em Londres. Scott era um personagem marcante, usando roupas ousadas africanas e soltando frases de efeito que aprendera nas noites. Sua esposa, Lucrezia, explica que “ob la di, ob la da” é uma tradução fonética de algo que o pai costumava dizer a ele na língua urhobo, usada pelos warri no meio-oeste da Nigéria. “Tinha um significado especial que ele nunca contou a alguém”, ela diz. “Nem mesmo os Beatles sabiam o que significava. Uma vez perguntei a Paul o que significava, e ele disse que achava que era ‘Comme ci, comme ça’, mas não é isso. Para Jimmy, era como uma filosofia que ele carregou a vida toda”. 

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Bag o’Nail

Jimmy Anonmuogharan Scott Emuakpor nasceu em Sapele, Nigéria, e migrou para a Inglaterra em meados de 1950, para trabalhar nos clubes e jazz do Soho. Na década de 1960, ele trabalhou com Georgie Fame and the Blue Flames e foi músico de apoio de Stevie Wonder na turnê de 1965 pela Inglaterra e, depois, formou a própria Ob-La-Di Ob-La-Da Band. Scott também compôs a trilha de algumas das cenas de dança no filme She, de Robert Day, estrelado por Ursula Andress, Peter Crushing e Christopher Lee. Segundo Lucrezia, a expressão se tornou conhecida porque nos shows ele dizia “Ob la di”, o público gritava “Ob la da”, e depois Scott respondia “life goes on”. A atitude de Paul de captar a frase e usá-la como inspiração para uma canção gerou polêmica. “Ele ficou incomodado quando fiz a música com a expressão porque queria receber direitos. Eu falei ‘Qual é, Jimmy, é só uma expressão. Se você tivesse escrito a música, poderia receber uma parte’”, Paul disse à Playboy em 1984.

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Durante as gravações – que começou no início de julho de 1968 e durou alguns dias –, Paul cometeu um erro ao cantar Desmond, em vez de Molly, “stay at home and did his pretty face”. Como os outros gostaram do erro, ele foi mantido. Nas gravações do dia 5 de julho, Jimmy Scott teve a honra de trabalhar com os Beatles pela única vez. Lucrezia se lembra de ter sido chamada para ouvir uma gravação em playback e levar um papel timbrado da Ob-La-Di Ob-La-Da Band para mostrar a Paul como soletrar a frase. Ainda em 1968, Jimmy apareceu no álbum Beggars Banquet, dos Rolling Stones, e, em 1969, fazendo a percussão da música Sympathy For The Devil no show gratuito da banda no Hyde Park (confira o vídeo abaixo). Na mesma época, ele foi preso e levado para a prisão de Brixton acusado de não pagar pensão para sua ex-mulher. Enquanto aguardava o julgamento, Scott pediu à policia para entrar em contato com o escritório dos Beatles e ver se Paul poderia pagar sua monstruosa dívida. Com a condição de retirar a queixa contra ele por causa da música, McCartney acertou as contas de Jimmy. Em 1969, livre das dívidas que o levaram para a prisão, Scott deixou a Inglaterra e só voltou em 1973, para trabalhar no projeto Pyramid Arts, em Londres, dando oficinas de música africana e percussão. Dez anos depois, em 1983, ele se juntou ao Bad Manners, e lá ficou até sua morte, em 1986. “Tínhamos acabado de fazer uma turnê pelos EUA e ele pegou pneumonia”, recorda Doug Trendle, também conhecido como Buster Bloodvessel, vocalista da banda. “Quando ele voltou para a Inglaterra, foi revistado no aeroporto por ser nigeriano. Eles o deixaram nu por duas horas. No dia seguinte, ele foi levado para o hospital e morreu. Ninguém tem muita certeza sobre quantos anos ele tinha, porque Scott mentiu a idade quando tirou seu primeiro passaporte britânico. Devia ter uns 64 anos”.

Jimmy deixou pelo menos doze filhos de dois casamentos. “Jimmy era um homem essencialmente musical, charmoso, irresistível e tinha o dom da lábia”, Lucrezia contaria depois. “Se a vida às vezes parecia um tédio, não deveria ser, porque as histórias que ele contava eram uma fonte interminável de diversão”. Paul, que manteve contato com Jimmy, também contribuiu com uma citação para um show que a antiga banda de Scott participou para arrecadar fundos para o Jimmy Scott Benevolent Fund. “Ele era um grande amigo. Nos anos 1960, costumávamos nos encontrar em vários clubes e ficávamos conversando até a hora de fechar. Ele tinha uma atitude muito positiva em relação à vida, e foi um prazer trabalhar com ele”.

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