A história da canção I Am The Walrus

A natureza incoerente de “I Am The Walrus” deve muito ao fato de ser uma mistura de pelo menos três ideias musicais de John, e nenhuma delas parecia ter estrutura suficiente para se tornar uma música completa. A primeira surgiu quando John estava em Kenwood, residência dos Lennon em Weybridge, e ouviu uma distante sirene policial. Incomodado com a perseguição aos amigos Keith e Mick e ao pessoal do International Times, John compôs a parte “Mis-ter c-ity police-man”, que reproduzia e se encaixava ao som da sirene. A segunda era uma melodia pastoral sobre seu jardim em Weybridge. A terceira era uma canção nonsense sobre sentar em um cereal de milho. Enquanto Hunter Davies estava fazendo uma minuciosa pesquisa para a biografia oficial dos Beatles na época, John disse: “Não sei como tudo vai terminar. Talvez elas acabem sendo diferentes partes da mesma música”.

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John em Kenwood

De acordo com Pete Shotton, um dos grandes amigos de John, a música começou realmente a ganhar vida quando Lennon recebera a carta de um aluno da Quarry Bank, escola que John estudou por anos em Liverpool, que mencionava que seu professor de inglês analisava algumas músicas dos Beatles durante as aulas. A carta foi enviada por Stephen Bayley, que recebera uma resposta com data de 1° de setembro de 1967. Bayley recorda: “Fiquei atônito com Sgt. Pepper, como todo mundo. Eu tinha um endereço de correio dele mais ou menos preciso porque uma tia e um tio moravam por perto em uma daquelas ruas particulares de pedra perto de Weybridge. Só Deus sabe por que ele respondeu, mas suponho que tenha sido porque eu mencionei que havia encontrado seu primeiro trabalho publicado na revista da escola. Ao mesmo tempo que Lennon respondeu à minha investigação de estudante de um modo emotivo e meticuloso, ele estava claramente irritado com o fato de os “homenzinhos de Quarry” ficarem irrequietos em busca de significados e horrorizado com a perspectiva de receber mais cartas. Tenho certeza de que ele disse para si mesmo “vou mostrar pra esses porras” e estava determinado a escrever uma canção que ninguém conseguisse explicar. Foi “I Am The Walrus”. A carta que Lennon me enviou continha também um broche com inscrição em vermelho sobre amarelo, dizendo ‘Sou artista. Pinto nus. Quer ser pintado nu?’. Eu o perdi”. Clique nas imagens das cartas a seguir para ampliá-las:

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Na carta resposta enviada por John, Calder é o Calderstones Park, um colégio feminino que ficava ao lado do Quarry Bank. Os meninos eram proibidos de ultrapassar o muro que os dividiam, mas John muitas vezes ignorava as regras e invadia o Calder, a fim de conversar com as meninas. Pobjoy era o diretor de John.

Caro Stephen,

Como o Quarry Bank nunca foi um colégio muito bom, a mudança parece OK – OK? Que tal me enviar um exemplar dessa revista. Respostas – Tudo que eu escrevo sempre foi para dar risada ou me divertir ou como você quiser chamar – faço para mim em primeiro lugar – o fim que as pessoas dão a isso depois é válido, mas não tem necessariamente de corresponder ao que eu penso a respeito. OK? Isso vale para quaisquer livros, “criações”, arte, poesia, canções, etc. – o mistério e a merda que são construídos à volta das formas de arte precisam ser destruídos, enfim – deve ser óbvio pelas tendências atuais. Disse o suficiente. A canção Mr. Kite saiu quase palavra por palavra de um antigo cartaz de espetáculo, inclusive os “Hendersons”. Pablo Fanque era o nome do circo. Não, não é aquele Sr. Slears das canetas coloridas. Lembro-me de sprechen se deutsch muito bem – porém sem lhe dar presentes – mas pode ser verdade. O Sr. Burton (Inglês) continua lá? – se sim mande lembranças – ele era um dos únicos professores que me entendiam e vice-versa. Russo, é? Não no meu tempo – como progredimos – não me diga que hoje deixam entrar na Calder para aulas de Prática. Getting Better reflete nossos pontos de vista (de Paul e meu). Acho que me perguntaram vagamente há anos se eu gostaria de voltar e dar uma olhada – mas já vi o suficiente quando estive lá – tenho boas lembranças – porém não tão boas! Tenho a mesma dificuldade que você ao escrever – mas a resposta é: deixe sair.

Com amor, John Lennon

P.S.: Não quero dar início a uma corrida de cartas dos homenzinhos do Quarry – então lide com ela com jeitinho, como se diz na “Londres Dançante”. Mas diga um oi para qualquer um daqueles professores (o termo não é bem esse), mesmo Pobjoy, que me levou à faculdade de arte para eu fracassar lá também. Meus agradecimentos a ele nunca serão suficientes.

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Depois da troca de cartas, John pediu a Pete Shotton para lembrá-lo de uma rima boba que as crianças da época adoravam. John anotou: “Yellow matter custard, green slop pie, all mixed together with a dead dog’s eye, slap it on a butty, tem foot thick, then wash it all down with a cup of cold sick”. John começou a inventar imagens absurdas (“semolina pilchards, elementary penguins”) e palavras sem sentido (“texpert, crabalocker”) antes de começar a juntar versos de abertura que tinha escrito durante uma de suas viagens de LSD. Depois ele juntou com as três ideias de canções que havia mostrado a Hunter Davies. Ao acabar a canção, John virou-se para Shotton e disse: “Deixe os filhos da puta analisarem essa”. Em 1980, em entrevista à Playboy, John disse que se Bob Dylan podia fazer qualquer coisa na época, ele tinha decidido que também podia “escrever esta merda”.

John Lennon e Pete Shotton

John Lennon e Pete Shotton

O “elementary penguin” que cantava “Hare Krishna” era John zombando de Allen Ginsberg, poeta beat que, na época, cantava o mantra em eventos públicos. A ideia da morsa veio de um poema de Lewis Carroll, que era o preferido de John, “The Walrus and the Carpenter”. O “eggman” supostamente era uma referência ao vocalista dos Animals, Eric Burdon, que tinha o estranho hábito de quebrar ovos sobre as mulheres enquanto fazia sexo e ficou conhecido entre seus colegas músicos como o “homem ovo”. Marianne Faithfull acredita que “semolina pilchard” era uma referência ao inspetor Norman Pilcher, da polícia metropolitana, que ficou famoso por perseguir os astros do pop por porte de drogas.

A gravação começou em 5 de setembro de 1967. Durou, com várias pausas, o mês inteiro. Foi uma difícil tarefa conseguir musicalmente o mesmo impacto estranho da escrita, mas George Martin fez um maravilhoso trabalho. Em 27 de setembro, foram gravados mais 16 instrumentos (oito violinos, quatro violoncelos, um clarinete baixo e três chifres) e um coro de 16 vozes diversas cantando o refrão de saída “Oompah-oompah, stick it up your jumper!” e “Everybody’s got one!”, cantado pelo grupo Mike Sammes Singers, um grande grupo vocal que fez muitos trabalhos para a televisão e rádio. Os efeitos sonoros de múltiplas camadas incluíam até um trecho do Rei Lear de Shakespeare, acrescentado dia 29 de setembro, e extraído de uma interpretação de Sir. John Gielgud no Third Programme da BBC (a cena em que Oswald é fatalmente apunhalado e grita “Oh, morte intempestiva!”). 

 

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6 Respostas para “A história da canção I Am The Walrus

  1. Minha musica favorita

  2. Pingback: I AM THE WALRUS. | BEATLES AND PAUL McCARTNEY ARE LOVE

  3. Este porra-louca tinha e teve toda razão: a música é uma m… mesmo! Ele tinha um rescaldo de frustração com Bobby Dylan porque Dylan só compôs clássicos e tinha uma visão geral e crítica do mundo. E Dylan era um poeta que musicava seus versos. E Dylan foi o único que teve coragem de cobrar aos Beatles uma posição mais madura em relação às letras bobas e até idículas do começo do fantástico quarteto, quando muitos estavam picados pelo vírus da conveniência e jogavam confetes neles. E aquela história de “protestar” contra a guerra do Vietnã, sei não… Aquilo foi golpe de marketing puro!

    • A letra é uma droga, mas a musica e a orquestração são ótimos … ele poderia ter criado uma letra melhor pra ela, mas acho que fazia parte da personalidade dele tirar sarro dos ” intelectuais ” da época …

  4. Para mim a letra e a música são psicodélicas e lembram bem as experiências das viagens em LSD, é como um sonho, um mergulho no incionsciente e na loucura da segunda metade dos anos 1960, nada perece ter sentido e quem disse que tem que ter? É arte é assim são apenas um monte de imagens mentais misturadas evocadas pela voz e pela sonoridade dos instrumentos musicais.

  5. francisco mezzovilla

    Em 1964, quando ouvi, pela primeira vez o “LP” do Sgt Peppers, adorei todas as músicas, exceto “I am the walrus”. Fui ao dicionário para saber o que significara “walrus” (morsa). Eu nem sabia o que era morsa. Fui a livros de Biologia e demorei a encontrar “morsa”. Ou seja, foi uma desilusão não ter conseguido entender a letra dessa música. Até que li este artigo. Finalmente satisfiz-me e reconhecendo que a incompetência não era minha. Hoje, contrariamente, gosta de ouvi-la e até mais que as músicas antológicas que adoro. Desisti de entender o que eles querem dizer nas suas letras e quero curtir o som. Porém, gosto de ler artigos que desenlaçam os meandros das letras dos Beatles, tal como este.

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