A trágica morte da mãe de John Lennon

Em 1958, as coisas estavam cada vez mais estranhas em Mendips, casa em que John Lennon morava com sua tia, Mimi, desde os 5 anos. O Quarrymen, banda de skiffle de John, Paul e George, havia acabado de gravar seu primeiro e único disco em busca de mais apresentações. Eles juntaram o dinheiro necessário e foram até um estúdio operado em um quarto nos fundos da casa de um senhor chamado Percy Phillips. As canções escolhidas foram “That’ll Be The Day”, sucesso de Buddy Holly, e “In Spite of All the Danger”, um excelente pastiche country-and-western escrito por Paul com a ajuda de George Harrison. Além disso, e da euforia de John pelo sucesso, sua tia Mimi estava tendo um caso clandestino com um inquilino de Mendips, um jovem estudante de bioquímica, Michael Fishwick. Ela era viúva e tinha o dobro da idade de Fishwick, de modo que o caso foi escondido de todos, inclusive de John.

A better version of this one. Mimi, John and Michael Fishwick outside the front door of Mendips.

Mimi, John e Michael Fishwick

Dia 15 de julho de 1958, todas as desconfianças de John se resumiram a um único fato: a morte de sua mãe. Ele e Julia Lennon estavam se reaproximando cada vez mais, depois de todos os traumas sofridos por traições, separações e abandonos, e não havia momento pior para uma das piores tragédias da vida de John. Aquele dia 15, terça-feira, estava quente e ensolarado. John estava de férias da faculdade, e passou a manhã em casa, mas depois “saiu com alguns amigos”, lembra Fishwick. A única visita que Mimi recebeu naquele dia foi de Julia, que apareceu de tarde para uma xícara de chá e para conversar, como sempre fazia. Já passava das nove e meia e havia acabado de escurecer quando Julia saiu para tomar o ônibus de volta para Allerton. 

coiote

John e Julia

O ponto do ônibus para Allerton ficava na Menlove Avenue, a cerca de duzentos metros de Mendips, do outro lado da movimentada rua de mão dupla, sem faixa de pedestre por perto, embora houvesse um limite de velocidade de 50 km/h. Normalmente Mimi acompanhava a irmã até o ponto, mas essa noite disse que não o faria, se Julia não se incomodasse. “Tudo bem, não se preocupe, até amanhã”, foi a resposta jovial. Quando elas estavam seguindo seus respectivos caminhos, Nigel Walley apareceu no portão de Mendips à procura de John. Julia explicou que ele não havia voltado para casa à tarde (na verdade, John estava naquele instante em Blomfield Road esperando que sua mãe voltasse) e depois acrescentou, com seu charme habitual: “Deixa pra lá. Você pode me acompanhar até o ponto do ônibus”.

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John e Nigel, um mês antes da morte de Julia

Mimi ficou parada em frente à porta da frente enquanto Julia e Nigel saíram juntos. Depois da caminhada de um minuto, se separaram na esquina com a Vale Road. Nigel virou à direita para sua casa enquanto Julia atravessou a pista de Menlove Avenue até o canteiro central, onde ficavam os antigos trilhos do bonde e agora estava gramado e com uma cerca viva. Julia atravessou a cerca e estava no meio da segunda pista quando um sedã Standard Vanguard, com a placa LKF 630, emergiu da penumbra. Nigel, que já estava pedalando rumo a sua casa, ouviu o guincho dos freios e o barulho da colisão. Ao se virar, assustado, viu o corpo de Julia sendo jogado ao ar. O barulho foi tão alto que Mimi e Michael Fishwick o ouviram da cozinha, em Mendips. “Olhamos um para o outro e não dissemos uma palavra”, lembra Fishwick. “Corremos como o diabo”. Quando chegaram lá, encontraram Julia caída na rua, com Nigel Walley ajoelhado ao lado. Ela não estava muito machucada e parecia estar em paz. Julia ainda estava viva, “mas quando atravessamos a rua e a vimos”, lembrou Mimi, “eu sabia que não havia esperança”.

óbito julia

Atestado de óbito de Julia

Em poucos minutos uma ambulância chegou para levar Julia ao Hospital Geral de Sefton. Mimi entrou na ambulância, ainda vestindo os chinelos com que tinha saído correndo para a rua. Julia faleceu na ambulância, antes mesmo de chegar ao hospital. Mimi não queria que John soubesse do ocorrido pela boca de um policial que batesse à sua porta, mas foi exatamente o que aconteceu: um policial de Liverpool, com seu capacete característico, bateu na porta da frente de 1 Blomfield Road e perguntou a John se ele era filho de Julia. A única pessoa que estava com ele era o membro de sua família que ele mais desprezava: Bobby Dykins. “Ele reagiu pior do que eu. Então ele disse: ‘Quem vai cuidar das crianças?’ E eu o odiei. Egoísmo filho-da-puta. Pegamos um táxi até o hospital de Sefton, onde ela estava deitada, morta… Falei histericamente com o chofer de táxi a viagem toda, arenguei sem parar, como se faz. O chofer de táxi simplesmente grunhia de vez em quando. Recusei-me a entrar para vê-la. Mas Bobby foi. Ele desabou”, conta John. “Foi a pior coisa que já me aconteceu. Tínhamos nos aproximado tanto, eu e Julia, em apenas alguns anos. Conseguíamos nos comunicar. Nos dávamos bem. Ela era genial. Pensei: ‘Porra, porra, porra. Isso fodeu realmente tudo. Já não tenho responsabilidade com mais ninguém”. Na mesma noite a família se reuniu em Blomfield Road e, quando John afinal saiu, não voltou para casa. Ele foi procurar sua confiável ex-namorada, Barbara Baker, e contar a notícia. Barbara lembra que os dois foram ao Reynolds Park e “ficamos lá abraçados, chorando até as lágrimas secarem”. 

JOHN LENNON OUTSIDE 'MENDIPS' WITH HIS AUNT HARRIET (BIRCH ).

John e Julia em Mendips

A morte de Julia foi registrada em um pequeno anúncio no Liverpool Echo e o enterro foi no cemitério de Allerton, no domingo seguinte, 20 de julho. Leila, prima e companheira de infância de John, lembra que naquele dia ele ficou deitado em seu colo durante a maior parte do tempo, atordoado demais para falar ou sequer se mexer. O carro que atropelou Julia era dirigido por um policial de folga, de 24 anos, Eric Clague, que morava em Ramillies Road. O acidente tornou-se objeto de um inquérito policial. Clague ainda estava aprendendo a dirigir e não poderia dirigir desacompanhado. A polícia era muito rigorosa com seus próprios membros, mas não houve acusação criminal de qualquer tipo. No inquérito, Eric declarou que não dirigia descuidadamente e só trafegava a 45 km/h numa zona onde a velocidade máxima não passava de 50 km/h. Nigel Walley, a única testemunha ocular, declarou que o carro parecia correr a uma velocidade anormal e ter perdido o controle na lombada que havia na rua exatamente quando Julia emergiu de repente da cerca viva. Quando o jovem policial foi eximido de culpa, Mimi teve uma explosão de fúria e o ameaçou com uma bengala.

mimi

John e Mimi em Mendips

Apesar das desconfianças, o policial Eric Clague não se safou impunemente. Foi suspenso de suas funções por um período e, logo depois, pediu demissão da força policial de Liverpool para começar a trabalhar como carteiro. Por uma cruel coincidência, uma das rotas de entrega na escala de Eric, era Forthlin Road, rua da casa de Paul McCartney. Muitas vezes, enquanto John estava sentado na sala de estar dos McCartney, compondo desenfreadamente com o seu companheiro, ele deve ter ouvido o correio da tarde ser jogado na porta da frente, sem a menor noção de quem era o “Senhor Carteiro”. Assim como, anos depois, ele mesmo entregaria centenas de cartas de fãs dos Beatles na mesma residência. Na noite em que Julia foi atropelada, uma vizinha de Mimi, a Sra. Bushnell, viu John tocando guitarra no seu lugar de costume, na varanda da frente de Mendips, já prevendo a saída triunfal que ele encontrou para todos os traumas e tragédias de sua vida.

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4 Respostas para “A trágica morte da mãe de John Lennon

  1. eduardo dos samtos farias

    o jol lenno disse antis quando era criança ou adolesç lembre da origem do amor pensan q iria ser um so com o pai da eternid

  2. Excelente matéria. Eu não sabia desses detalhes todos…Mimi tinha um caso! Pois é…Qualquer morte choca. Mas uma morte assim atropelada…inesperada…a dor deve ser ainda maior. Sei de um caso assim acontecido em Belo Horizonte. A mãe de um conhecido meu, despediu do filho e atravessou a rua para a Rodoviária. Toda alegre…Morreu ali atropelada. Ele viu. Ela ficou em coma por alguns dias, eu até fui ao hospital. Faleceu poucos dias depois. Essa tragédia na vida de John o aproximou mais ainda de Paul que também tinha perdido a mãe um pouco antes. O Nigel só fala na Bárbara ( outra novidade para mim que só sabia de Cynthia) mas em outros artigos contam que Paul esteve com ele naquele dia ou um dia depois, não sei bem. Como tenho essa de me colocar no meio da historia ( rs rs rs), e costumo até forçar a barra para isso, estou aqui pensando que minhas cartas estiveram nas mãos do motorista imprudente. Pois mandei diversas cartas para o endereço de Paul e sei que chegavam lá porque recebi resposta de todas. Boa secretária a Freda kelly. Grandes chances de terem sido entregues por ele! Ai….deu até calafrio. Enfim, uma matéria importante para nós fãs. Detalhes que aumentam ainda mais o clima lendário dos Beatles;

  3. E muito triste esse fato que passou na vida de John eu sou apaixonado com Beatles, depois ele tem aquele morte estúpida, covarde adorei esta matéria parabéns nota mil.

  4. “…pior dor, é a de não ser querido,
    e perceber, que os seus pais,
    não precisam de voce,
    da maneira que voce precisa deles..”
    (J Lennon – 1980 pouco antes de morrer)

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