A história do filme A Hard Day’s Night

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A proposta para um longa-metragem chegara aos Beatles e a Brian Epstein em outubro de 1963 – antes mesmo de tocarem pela primeira vez nos EUA e arrebatarem multidões -, vinda de um grande estúdio americano, o United Artists, com o objetivo de produzir um musical de baixo orçamento que daria à divisão fonográfica da companhia uma possibilidade de comercializar o álbum da trilha sonora dos Beatles nos Estados Unidos. A partir de 1961, a UA começou a se interessar pelo entretenimento britânico, e isso ajudou no fato de um estúdio cinematográfico mostrar confiança nas possibilidades comerciais dos Beatles nos EUA, enquanto a Capitol Records parecia não se importar. Quando os Beatles se tornaram uma sensação na Grã-Bretanha no outono de 1963, George Ornstein – comandante do escritório da United Artists em Londres – não perdeu tempo em autorizar o produtor independente Walter Shenson a abordar Brian Epstein com a proposta de que os Beatles estrelassem um filme em preto e branco, produzido com o pequeno orçamento de meio milhão de dólares. Shenson tinha a reputação de homem que sabia vender filmes britânicos para o público americano e, quando ele soube da idéia de um filme dos Beatles, logo pensou em Richard Lester, que já havia dirigido um filme de Shenson.

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Richard Lester

Nascido e criado na Filadélfia, Richard Lester trabalhara numa emissora de televisão local antes de se mudar para Londres em 1955. Em um ano entrou para os Goons, com quem fez duas séries de televisão que não duraram muito (Idiot’s Weekly e A Show Called Fred) e um filme caseiro surrealista, ambientado num campo vazio, chamado The Running Jumping And Standing Still Film, que ganharia seguidores cult nos EUA e uma indicação ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 1959. Em 1962, dirigiu seu primeiro longa, It’s Trad, Dad!, um musical de baixo orçamento estrelado por Helen Shapiro e nomes do jazz tradicional. Mais tarde, no mesmo ano, por recomendação de Peter Sellers, Lester foi contratado para dirigir The Mouse on the Moon. Ao demonstrar seu talento para a apresentação tanto de música pop quanto de comédia, os dois filmes convenceram Shenson de que Lester era o homem ideal para dirigir os Beatles, agora, como atores.

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O nome de Alun Owen como possível roteirista para o filme foi mencionado por Brian Epstein e eufóricamente insistido pelos Beatles na primeira reunião com Walter Shenson, em outubro de 1963. Owen era um dramaturgo mais conhecido por uma série de dramas para televisão ambientados no Merseyside e repletos de cor local. O sentimento de Owen pela vida em Liverpool era mais complexo e menos sentimental. O apoio dos Beatles a Owen como roteirista dizia algo sobre o estado de espírito da própria banda numa época em que eles também deixavam a cidade para trás. O envolvimento do dramaturgo garantia que o filme, independente do enredo, os apresentaria como quatro filhos de Liverpool.

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Embora os Beatles não tivessem tempo para exercer muita influência direta sobre o conteúdo do filme, eles fizeram questão de deixar claro para Walter Shenson que não tinham interesse em se fazer de bobos. Não se diziam atores, mas queriam que o filme evitasse seguir o rumo dos musicais em geral, em particular os filmes de Elvis. Foi a partir disso que, Shenson, Owen e Lester, vieram com a ideia de que os Beatles interpretassem a si mesmos em um falso documentário sobre a vida no centro do fenômeno pop. Alun Owen foi enviado para observar o fenômeno em primeira mão durante um final de semana de shows em Dublin e voltou tão impressionado com a forma furtiva que eles usavam para ir dos quartos para os carros que introduziu a noção mais séria dos Beatles como “prisioneiros do sucesso”. Durante o inverno de 1964, enquanto o grupo se apresentava na França e nos EUA, Shenson e Lester reuniram o elenco e a equipe técnica. Wilfred Brambell, o astro rabugento da popular série de tevê da BBC Steptoe & Son, foi contratado para interpretar o avô fictício de Paul McCartney. Normann Rossington foi escalado como Roadie, Victor Spinetti como um diretor de televisão neurótico e Kenneth Haigh como produtor de um programa de televisão teen ao modo de Ready, Steady, Go!. Gilbert Taylor, que havia acabado de filmar Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, ficou encarregado da fotografia. Enquanto isso, no escritório da UA em Londres, todos já estavam confiantes do sucesso dos Beatles nos EUA e que isso renderia fortunas do filme e das vendas do LP da trilha sonora. As filmagens começaram no início de março e continuaram pelas próximas seis semanas entre a relativa calmaria dos Twickenham Studios e o caos de várias locações em Londres. O trabalho externo era sempre o mais complicado por, onde quer que as câmeras estivessem em determinado dia, estar sempre rodeado por garotas histéricas que dificultavam os trabalhos. Mas Richard Lester parecia gostar de estar no meio do caos. “Era como estar no centro do universo”, ele dizia. “A estrutura do roteiro tinha de ser uma série de tiradas de uma frase. Isso me permitia, em algumas cenas, virar a câmera para eles, dizer uma frase, e, então, eles a repetiam. Se não ficasse ótimo, eu a dizia de outra maneira e eles a repetiam de outra maneira”.

Unseen photos of the Beatles

Os Beatles conversam durantes as filmagens de A Hard Day’s Night

As seis semanas que os Beatles passaram trabalhando no filme marcaram a maior estadia sem interrupção nenhuma em Londres desde que haviam começando a vir à cidade de maneira regular, há dois anos. Com tudo o que estava acontecendo, os quatro já haviam trocado os quartos de hotel que ocupavam nas constantes idas e vindas por acomodações mais permanentes. John, Cynthia e seu filho Julian Lennon viviam em um apartamento de terceiro andar em Kensington. Paul McCartney tinha praticamente se mudado para a casa de Jane Asher, que vivia com a família no West End. George Harrison e Ringo Starr dividiam um apartamento em Knightsbridge, no mesmo prédio moderno em que morava Brian Epstein, que também estava tratando de transferir a NEMS Enterprises de Liverpool para um conjunto de escritórios no West End vizinho ao Palladium Theater. Durante esse tempo, o primeiro livro de John Lennon, In His Own Write, foi lançado. No set de filmagens do filme, que tinha o título provisório de Beatlemania, não era difícil encontrar John e Dick Lester conversando sobre o livro e seus jogos de palavras esquisitos. Foi em uma dessas conversas que o título do filme apareceu. John explicava a Lester que muitos dos seus jogos de palavras e sintaxe torta derivavam da maneira como as pessoas comuns falavam em Liverpool. Ringo, por exemplo, sempre aparecia com expressões esquisitas, que logo começaram a ser chamadas de “ringoísmos”. John então destacou um que usara no livro, num contro sobre “Sad Michael”, que acordou certa manhã depois de uma “noite de um dia duro” (“a hard day’s night“).

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Ringo durante as filmagens

Para a United Artists, a contribuição mais importante dos Beatles para o filme seriam as seis músicas originais que determinariam a estrutura musical e dariam ao selo fonográfico da companhia o álbum da trilha sonora, o que primeiro incentivou o projeto. Como os Beatles não teriam tempo de gravar quando as filmagens começassem em março, todas as seis, além de “Can’t Buy Me Love” (que foi incluída na trilha) e “You Can’t Do That”, tiveram de ser concluídas na semana seguinte ao retorno dos EUA, em fevereiro de 1964. Os estúdios das EMI, em Abbey Road, haviam recém instalado equipamentos de gravação de quatro canais, o que ajudou na produtividade das sessões. Isso revolucionaria a abordagem de produção dos Beatles, porém, nesse estágio inicial, sua função era reduzir a margem de erro, ao permitir mais flexibilidade na gravação e mixagem das faixas vocais e instrumentais. Seguindo o espírito leve e alegre do filme, a maioria das músicas que Lennon e McCartney escreveram para a trilha sonora eram animadas, independente do tema. Em abril, pouco depois que Richard Lester e Walter Shenson adotaram a expressão de Ringo como título do filme (Os Reis do Iê-Iê-Iê, no Brasil), Shenson pediu a Lennon e McCartney que compusessem uma faixa-título, para ser tocada durante os créditos iniciais e finais. Para o espanto de Shenson, em alguns poucos dias os Beatles escreveram e gravaram uma abertura de intensidade arrepiante.

A Hard Day’s Night estreou em Londres no dia 6 de julho – depois de um mês de férias tirados pelos Beatles -, alguns dias depois em Liverpool e dali a três semanas nos Estados Unidos. A estreia londrina contou com a presença da princesa Margaret e o Piccadilly Circus enfeitado com cabeças gigantes dos Beatles na fachada.

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Estreia de A Hard Day’s Night em Londres

A estreia em Liverpool, no dia 10 de julho, foi uma recepção de proporções gigantescas, com mais de cem mil pessoas no aeroporto de Speke e lotando as ruas ao redor da prefeitura, onde os Beatles foram recebidos pelo prefeito e pela banda da polícia, que tocou “Can’t Buy Me Love”.

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Os Beatles são recebidos por mais de cem mil fãs no aeroporto de Speke, em Liverpool

Nos EUA, não houveram tais formalidades. A Hard Day’s Night chegou a setecentos cinemas por todo o país, se tornou o filme mais rentável daquele verão e estabeleceu um recorde de “retorno de investimento” na indústria cinematográfica que se manteria por anos. O único incidente foi causado pelo desejo dos fãs de se manterem colados aos assentos no final, no intuito de assistir ao filme repetidas vezes.

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O que se via na tela era um relato discretamente fictício de dois dias na vida dos Beatles, que nunca são chamados assim, apenas John, Paul, George e Ringo, na suposição bastante razoável de que todo mundo no filme (com algumas excessões planejadas) e que assistia ao filme sabia com precisão quem “eles” eram. Como se esperava, a principal contribuição de Owen para o filme foi dotá-lo de um clima de Liverpool. As falas escritas por ele para os Beatles se adequaram à cadência cantada do sotaque e enfeitaram os diálogos com um glossário de gírias scouse. O estilo de direção de Richard Lester contribuiu para que A Hard Day’s Night fosse uma mistura intensa do humor dos Goons – nos modos irreverentes de rir de si mesmo, nos toques de surrealismo e nas gags de corrida incessantes -, e com a marca da Nouvelle Vague – no visual, clima e ritmo ágil do filme -.

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Os Beatles se preparam para gravar outra cena

Quase sem excessões, as resenhas de A Hard Day’s Night nas imprensas britânicas e americana foram de um entusiasmo abundante. Esse deveria ser o ponto duvidoso na carreira dos Beatles, onde qualquer talento de verdade que possuíssem se tornaria exagerado. O fato de os resultados terem se mostrado o contrário serviu como uma demonstração dramática do poder das expectativas diminuídas. As resenhas seguiam um padrão previsível, começando com uma expressão de assombro (“Isso vai surpreendê-los – pode até fazer vocês caírem da cadeira”, escreveu Bosley Crowther no New York Times), seguida por parágrafos de elogios à inteligência e à esperteza do roterio de Alun Owen e à sofisticação da direção de Dick Lester. Numa frase que capturou as pretensões de Lester com precisão, Andrew Sarris, do Village Voice – depois de confessar: “ajudem-me, resisti aos Beatles o máximo que pude” -, chamou o filme de “o Cidadão Kane dos musicais de jukebox“. Arthur Schlesinger Jr., fazendo freelance como crítico de cinema para a revista Show, descreveu o filme como uma “conspiração da delinquência contra a soberba” e o considerou “extasiante pela audácia e modernidade”. Os críticos se esbaldavam ao buscar alusões cinematográficas que Lester jogara como iscas. Além de tudo, Ringo foi comparado por muitos jornais a Chaplin.

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As resenhas de A Hard Day’s Night também renderam os primeiros elogios escritos aos Beatles feitos por pessoas com experiência em crítica de artes populares. No The Observer, Penelope Gilliatt sugeriu que eles se tratavam com “o estoicismo de palhaços e o tipo de grosseria despreocupada que, em geral, só se faz possível entre irmãos”. Talvez a resenha mais criteriosa tenha vindo de Elizabeth Sutherland para o The New Republic. Sutherland não considerou os Beatles nem loucamente engraçados nem ultrajantes em particular, e admitiu não ter dado muita bola para a música. Em vez disso, ela deu crédito a eles pela integridade, complexidade e um nível “surpreendente” de charme: “Aqui estão quatro jovens de sucesso que sugerem uma nostalgia para a própria juventude; que são profissionais patentes e fizeram o mais antiprofissional dos filmes. Seus olhares podem ser duros e algo mod, e depois acessíveis, e ambas as imagens são autênticas”. Ao comentar sobre os fãs, Sutherland escreveu: “Não há uma única garota pré-adolescente na plateia da apresentação final que choramingue em silêncio, e isso parece vir mais de uma apreciação das tentativas ocultas da banda de agradar, de um senso de gentileza compartilhada, do que da satisfação de algum tipo de pseudo-orgasmo”. “Os Beatles representam um estilo baseado em não pressionar. Numa época em que nossa comédia se tornou histérica e nosso surrealismo surreal demais, eles não se esforçam muito para serem engraçados, raivosos ou poéticos”, completou Sutherland.

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Para os adolescentes que formavam o principal público do filme, A Hard Day’s Night apenas concentrava todos os aspectos pertinentes do apelo do grupo – a música, o visual, o estilo e o humor – num formato que poderia ser revisitado repetidas vezes. Foi nele que John e Paul perceberam que suas personalidades individuais precisavam uma da outra, a azeda precisa da doce, e vice-versa; foi nele que George conheceu Pattie Boyd, que se tornaria importante em sua vida, sendo inspiração para dezenas de canções inesquecíveis; e foi nele que Ringo mostrou que não era apenas o homem da bateria que marcava o tempo das canções, atirando desenfreadamente seus “ringoísmos” durante todos os anos seguintes. Isso fez de A Hard Day’s Night, com efeito e para sempre, um filme de treinamento para todos os beatlemaníacos.

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