Quando John Lennon foi raptado pelo próprio pai

Em 1946, quando John tinha 6 anos, o casamento de Alf e Julia Lennon estava desmoronando. Primeiro, Alf descobriu que Julia o traíra com um jovem soldado galês, enquanto ele estava no mar, e estava grávida. Ele se mostrou disposto a perdoar Julia e criar a criança que ela teria, mas, preocupado com sua reputação de marinheiro, o pai de Julia achou melhor dar a criança para a adoção. Victoria Elizabeth, nome dado por Julia, foi adotada por uma família norueguesa e passou a se chamar Ingrid Maria.

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Julia e Victoria Elizabeth

Se Alf pensava que seu perdão e demonstração de afeto por Victoria Elizabeth salvariam seu casamento, acabou decepcionado. O segundo e definitivo passo para o fim do casamento veio em 1946, quando Alf chegou de outra temporada no mar e encontrou Julia abertamente envolvida com um garçom de hotel chamado Bobby Dykins. Dessa vez Alf não engolira a tristeza e uma furiosa briga começou na 9 Newcastle Road, casa que Alf morava com Julia, John e os seus sogros. As coisas pioraram quando Julia anunciou que ia morar com Dykins e levaria John embora. John foi acordado pelos gritos histéricos de sua mãe enquanto Alf tratava de empurrar Bobby para fora de casa. O pequeno John ficou alí, imóvel no topo da escada, observando tudo que acontecia. Quando Alf acordou na manhã seguinte John havia sido levado por Pop Stanley, pai de Julia, e ela estava retirando sua mobília com a ajuda de uma vizinha. Alf se pôs a ajudá-las, dizendo a Julia com o ostensivo pieguismo que lhe deixasse apenas “uma cadeira quebrada” onde se sentar.

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Foto atual de 9 Newcastle Road

O mar, seu velho amigo e consolador, estendeu-lhe a mão mais uma vez, e em abril de 1946 ele encontrou uma vaga como garçom de noite na capitânia da companhia Cunard, o Queen Mary, que fazia o trajeto entre Southampton e Nova York. Quando faltava uma hora para o navio partir, recebeu um telefonema de Mimi, pedindo que voltasse imediatamente a Liverpool. Não foi um telefonema fácil para Mimi, ela nunca aprovara o casamento de Julia, mas admitia que John estava sentindo muita falta do pai verdadeiro. Ela disse a Alf que Julia e John voltaram a morar em 9 Newcastle Road, e agora Bobby estava junto. Segundo Mimi, John não gostava do “novo pai”, tendo andado quase quatro quilômetros sozinho entre Newcastle Road e a casa de Mimi. John pegou o telefone excitadamente e perguntou a Alf quando voltaria para casa. Ele disse que não poderia romper o acordo, mas prometeu voltar assim que o navio retornasse a Southampton, dali a duas semanas.

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Alf Lennon

Ele cumpriu sua promessa, chegando à casa de Mimi tarde da noite quando John já estava dormindo. Alf estava faminto, depois de tanto tempo sem pisar na terra firme, mas tudo o que recebeu foi uma xícara de chá, acompanhada de um relatório sobre a conduta imprópria de Julia com Bobby Dykins. Ela também apresentou uma lista de gastos que teve de desembolsar para as necessidades de John desde a sua chegada. Graças a contrabandos de meias de nylon, Alf tinha bastante dinheiro vivo no bolso, e deu vinte libras a Mimi. Naquele momento, Alf decidiu que não havia outra alternativa senão raptar o seu filho no dia seguinte.

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Alf passou a noite na casa de Mimi e, na manhã seguinte, foi acordado por um John eufórico pulando sobre o seu peito. Sua sugestão de que os dois saíssem para fazer compras e passar o dia juntos foi recebida com enorme entusiasmo pelo pequeno John. Acreditando se tratar de um passeio para comprar roupas novas ao seu sobrinho, Mimi não fez nenhuma interferência. Eles foram até a casa de Sydney, irmão de Alf, e ele lhe confidenciou todo o plano. Blackpool foi o destino escolhido por dois motivos: era um balneário famoso por suas atrações infantis e era a cidade natal de seu colega de bordo e companheiro de mercado negro Billy Hall.

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Por quase três semanas Alf ficou hospedado na casa dos pais de Billy com John, gastando sua abundante reserva de dinheiro em todo brinquedo e doce que o filho manifestasse interesse. A idéia inicial era que, quando acabasse todo o dinheiro e Alf tivesse que voltar ao mar, John ficaria com os Hall em Blackpool. Quando soube que pretendiam vender a casa e se mudar para a Nova Zelândia, um novo plano tomou forma. Os pais de Billy Hall levariam John consigo, fingindo serem seus avós; depois disso, Alf, Billy e seu irmão seguiriam para a Nova Zelândia, em algum navio de carreira destinado à Austrália.

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Alf não teve tempo de colocar o plano em prática. Logo Julia descobriu a pista de onde estava seu filho e em um ensolarado dia de junho apareceu na casa dos Hall, acompanhada de Bobby Dykins, para levar John de volta. Inicialmente, sua exigência não se apoiava em nenhuma força real. Quando Alf mencionou seu plano de levar John para a Nova Zelândia, Julia concordou que poderia ser o começo de uma vida maravilhosa para o filho, coisa que nunca teve aos seus cuidados, e pediu apenas para vê-lo uma última vez. Quando John foi trazido à sala, sua primeira reação, depois dos dias de divertimentos em parques e ruas de Blackpool, foi pular no colo de Alf. Mas quando Julia reconheceu a derrota e virou as costas para partir, John desceu do colo do pai e correu atrás dela, afundando o rosto na sua saia e pedindo aos soluços que não fosse. Para tentar resolver o problema da melhor forma possível, Alf implorou uma nova chance para Julia, mas ela não quis saber daquilo. Alf então disse que John deveria escolher entre ir com a mãe ou ficar com o pai. Era tudo o que precisava para dividir o pequeno John ao meio. John aproximou-se de Alf e segurou sua mão. Então, quando Julia se virou de novo, ele entrou em pânico e correu atrás dela, gritando para que esperasse e gritando ao pai para que viesse também. Alf ficou imóvel, grudado em sua cadeira, enquanto John partia, puxado pela mão, com um rosto que dizia: “vem, pai, por favor”.

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John e Julia

Naquela noite, os pais de Billy Hall fizeram de tudo para tentar animar Alf. Depois de algumas tentativas, decidiram levá-lo ao pub The Cherry Tree, persuadiram-o a fazer seu número de imitação de Al Jolson aos frequentadores do bar. Não havia canção mais adequada do que a que Alf escolheu. “Little Pal” era um tributo de um pai que observava com adoração seu pequeno filho aconchegado no seu quarto fofo e seguro. Em vez de “Little Pal”, em cada verso Alf cantava “Little John”. Lágrimas escorriam do seu rosto mas, mesmo com a voz embargada, cantou a canção até o final, em meio a uma emocionada avalanche de palmas e assobios.

Little Pal, if Daddy Goes away
Promise you’ll be good from day to day
Do as Mother says and never sin
Be the man your Daddy might have been
Your Daddy didn’t have an easy start
So this is the wish that’s in my heart

What I couldn’t be, Little Pal
I want you to be, Little Pal
I want you to laugh and to sing and to play
And be good to Mother while Daddy’s away

Each night how I’ll pray, Little Pal
That you’ll turn out right, Little Pal
So till we meet again
Heaven knows where or when
Pray for me now and then, Little Pal

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Uma resposta para “Quando John Lennon foi raptado pelo próprio pai

  1. Muito emocionante. Podemos ver Alf agora de outra maneira. E sabemos agora que John muito herdou do pai.

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