A história da canção She’s Leaving Home

No dia 17 de fevereiro de 1967, o Daily Mail publicou um artigo sobre uma adolescente londrina de 17 anos que havia sumido de casa fazia mais de uma semana. O pai da jovem, aflito, afirmava: “Não consigo imaginar por que ela fugiria. Ela tem tudo aqui”. Em 1967, adolescentes fugindo de casa era um assunto comum. Como parte da criação de uma sociedade alternativa, o guru da contracultura Timothy Leary incitou seus seguidores a abandonarem as escolas e empregos. Como resultado, mais de 90 mil jovens rumaram em direção a São Francisco, centro do flower power. Esse artigo poderia ser apenas mais um se não fosse um leitor chamado Paul McCartney.

flower power

Com apenas uma simples matéria de jornal para se basear, Paul escreveu uma música comovente sobre uma jovem fugindo das obrigações de uma casa respeitável em busca de liberdade, diversão e romance nos agitados anos 60. O que ele não fazia idéia era que, incrivelmente, havia conhecido a garota em questão apenas três anos antes. Ela se chamava Melanie Coe, filha de John e Elsie Coe, que viviam em Stamford Hill, norte de Londres. As únicas diferenças entre a história da garota e a música são que ela conheceu um homem em um cassino, em vez de “na loja de carros”, e que ela saiu de casa de tarde, enquanto os pais estavam no trabalho, em vez de pela manhã enquanto dormiam. “O impressionante sobre a música era quanto ele acertou sobre minha vida. Falava dos pais dizendo ‘we gave her everything money could buy’, o que era verdade no meu caso. Eu tinha dois anéis de diamante, um casaco de pele, roupas de seda e cashmere feitas à mão e até um carro”, diz Melanie. “Depois, havia um verso que falava ‘after living alone for so many years’, o que realmente me tocou porque eu era filha única e sempre me senti sozinha. Nunca tive diálogo com nenhum dos meus pais. Era uma batalha constante. Eu saí porque não conseguia mais encará-los. Ouvi a música quando foi lançada e pensei que era sobre alguém como eu, mas nunca sonhei que na verdade fosse sobre mim. Eu me lembro de pensar que não tinha fugido com um homem do mercado de automóveis, então não podia ser eu! Eu devia estar na casa dos vinte quando minha mãe disse ter visto Paul na televisão, e ele tinha dito que a música era sobre uma matéria de jornal. Foi quando comecei a dizer aos meus amigos que era sobre mim”. O caso de Melanie é exemplar do conflito de gerações do fim da década de 1960. Ela desejava uma liberdade da qual ouvira falar, mas que não tinha encontrado em casa. Seu pai era um executivo de sucesso, e a mãe, cabelereira. Tinham um casamento insosso e frágil. Eles não tinham religião e a coisa mais importante da vida era os status e o dinheiro. “Minha mãe não gostava de nenhum dos meus amigos. Eu não podia levar ninguém para casa. Ela não gostava que eu saísse. Eu queria atuar, mas ela não me deixou ir para a escola de teatro. Ela queria que eu fosse dentista. Ela não gostava de como eu me vestia. Ela não queria que eu fizesse nada que eu queria. Meu pai era fraco. Ele acatava qualquer coisa que minha mãe dissesse, mesmo que discordasse”, conta Melanie.

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Foto de Melanie Coe no artigo do Daily Mail.

Foi através da música que Melanie encontrou consolo. Aos 13 anos, ela começou a frequentar os clubes do West End de Londres e, quando o lendário programa de televisão ao vivo Ready Steady Go! começou, no fim de 1963, ela se tornou uma dançarina regular nele. Os pais de Melanie vasculhavam os clubes e a levavam de volta para casa. Se chegasse tarde, apanhava. Ela via nas ruas um jeito de ser ela mesma e se divertir. Melanie procurava nos clubes e nos amigos diversão e carinho. “Minha mãe não era nada carinhosa. Ela nunca me beijava”, diz Melanie. No dia 4 de outubro de 1963, os Beatles participaram pela primeira vez do Ready Steady Go! e, por coincidência, Melanie participava de um concurso de mímica. Paul McCartney escolheu Melanie como a melhor e a entregou o prêmio, sem imaginar que 3 anos depois faria uma música inspirada nela. Cada um dos Beatles deu a ela uma mensagem autografada. “Passei o dia nos estúdios ensaiando, então estive perto dos Beatles a maior parte do tempo. Paul não estava a fim de muito papo, e John parecia distante, mas passei um tempo conversando com George e Ringo”, ela conta.

Depois que saiu de casa, Melanie se apaixonou por David, um crupiê que conheceu em um clube. Eles alugaram um apartamento em Sussex Gardens e enquanto davam um passeio uma tarde viram uma foto dela na primeira página de um jornal vespertino. Melanie voltou correndo para o apartamento e colocou óculos escuros e chapéu. A partir daquele momento, viveu com pavor de ser encontrada. Até que, dez dias depois, encontraram o local de trabalho de seu namorado. Foram até lá e falaram com o chefe de David, que persuadiu Melanie a ligar para seus pais. Quando eles foram vê-la, enfiaram-na na parte de trás do carro e a levaram para casa. Para fugir dos pais, Melanie se casou aos 18 anos. O casamento não durou muito mais do que um ano, e, por volta dos 21, ela tinha se mudado pra os EUA para viver em um Ashram e tentar trabalhar como atriz. Hoje Melanie vive na Espanha com dois filhos e o namorado. Ela compra e vende jóias de Hollywood dos anos 1950. “Se eu fosse viver minha vida de novo, não escolheria fazer tudo igual. O que eu fiz foi muito perigoso, mas tive sorte. Acho que é bom ser imortalizada em uma música, mas teria sido ainda melhor se tivesse sido por ter feito alguma coisa, em vez de por ter fugido de casa”, ela comenta.

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